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sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

Sobre os objetivos do dumping do preço do petróleo



Olá alunos, 

A Arábia Saudita está injetando mais petróleo no mercado e a um preço menor do que o convencional. Esse desajuste esta causando preocupação e a postagem de hoje busca analisar os motivos que levaram a essa política.

Esperamos que gostem e participem. 
 
Fellype Fagundes e Carlos Araújo  Monitores da disciplina "Economia Política e Direito" da Universidade Federal Fluminense

A Arábia Saudita está destruindo o mercado de petróleo ao vender 11,8 milhões de barris (dois milhões a mais que sua cota) a um preço de 50-60 dólares o barril (d/B), ou seja, até 40 dólares menos do que alguns meses atrás. Se a baixa vai ser temporária, só Washington poderá saber, além de Riad, já que a fórmula oferta demanda não explica a situação: a elevada tensão e as guerras que estão esgotando o Oriente Próximo, junto das flutuações na oferta do Iraque, Líbia, Irã, Nigéria e Síria deveriam ter empurrado os preços para cima.

O conjunto das explicações convencionais apontam para a necessidade de a Arábia Saudita conseguir grandes quantidades de dinheiro para realizar seus mega projetos de construção de infraestrutura; recompensar a redução de suas exportações para os Estados Unidos, país que aumentou sua própria produção; a desaceleração na China e o estancamento na zona do Euro; o fracasso da Abenomics, o projeto de reformas econômicas no Japão, lançadas pelo premiê Shi ao Abe; a queda da tensão entre Rússia e Ucrânia e inclusive a diminuição do avanço do Estado Islâmico no Iraque.

Parece que desta vez uma queda no preço do petróleo não impulsionará o crescimento econômico de seus compradores. Por sua vez, os analistas "não convencionais", divididos em dois principais apontam o seguinte:

(A) Um complô arquitetado pelos Estados Unidos e pela Arábia Saudita para afundar as economias da Rússia, principal produtor de petróleo no mundo, e do Irã. Desse modo, também castiga Moscou pela Ucrânia e Crimeia e pelo apoio a Bashar al Assad, forçando o Kremlin a reduzir seus gastos militares. No caso do Irã, serve para tirar vantagem de Teerã nas negociações nucleares em curso e tirar sua força na região. Lembra 1985, quando os sauditas quintuplicaram sua produção de 2 a 10 milhões de barris por dia e os vendeu a 10 dólares em vez dos 32, que era seu preço, obrigando a URSS a oferecer seu barril por 6 dólares, afundando a economia planificada.

(B) Que se trata de outro caso de dumping lançado pelos sauditas: fixar preços predatórios com a finalidade de atingir a Rússia e o Irã, mas também os EUA por sua "revolução do xisto". Assim, pretende conseguir contratos interessantes na Ásia e sabotar a petição das companhias norte-americanas ao Congresso para levantar a proibição sobre as exportações de petróleo.

O cenário, porém, é mais complexo: em um cartel como a Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP), um aumento da produção não tem por que acarretar uma queda nos preços.

O Irã, apesar de ser uma das principais reservas mundiais de petróleo, envia somente ao mercado 800 mil barris (comparados aos 4 milhões de 1977) e a política dos sauditas não pode lhe prejudicar mais do que as sanções da ONU, dos EUA e da União Europeia fazem.

Se Riad quisesse prejudicar os EUA, teria desvinculado o petróleo do dólar. Em vez disso, reduziu os preços para seu aliado estratégico, sendo consciente de seu status de ser “Estado cliente” e que sua existência e segurança continuam dependendo da proteção militar do Tio Sam, que controla os sauditas, entre outros mecanismos, mediante a venda de armas.

Que um preço abaixo de 75 dólares não é rentável para os EUA pelo alto custo da produção de xisto betaminoso. Seria dar como um tiro no pé.

Objetivos: desmantelar a OPEP e salvar o petrodólar

Em 1973, Henry Kissinger sugeriu que os EUA deveriam invadir o Oriente Próximo e dissolver a OPEP. Acabar com o controle da OPEP sobre os preços do petróleo, fazer com que cada sócio estabeleça de forma individual para reduzir as tarifas e impedir que utilizem outra moeda que não seja o dólar, são dois objetivos da guerra de preços. Dois líderes que tentaram substituir a moeda verde pelo Euro, Saddam e Kadafi, foram assassinados. Em setembro de 2000, o presidente iraquiano anunciou a venda de seu pretróleo em Euros e em 2002 transformou os 10 bilhões de dólares do fundo de reserva do país na ONU na moeda europeia, desvalorizando o dólar. Os EUA querem sancionar, encurralar ou atacar todos os produtores de petróleo para obrigá-los a usar o dólar? E o capitalismo de livre mercado?

Meses antes da invasão do Iraque, um barril custava 15,30 dólares. Meses depois, 40,42, preço que continuou subindo sem parar, enchendo a Reserva Federal de petrodólares. Hoje, esta situação se inverteu; o valor do dólar aumentou e o preço do óleo bruto reduziu. Assim, ressuscitaram um dólar martirizado – cuja fortaleza depende dos petrodólares – mais forte desde junho de 2010.

O petróleo saudita e o dólar são dois dos pilares do domínio de Washington sobre o mundo. Que sua moeda seja o patrão do petróleo é tão vital para os EUA que o país pode perder um punhado de dólares e a indústria de xisto, em troca da desestabilização da Rússia, Irã, Venezuela e Equador. Derrotar Bashar al Assad seria a cereja do bolo.

Em 2012, Barack Obama forçou a Europa a deixar de comprar petróleo iraniano, impedindo, entre outros fatores, a transação petróleo/euro. Guerra financeira entre as potências ocidentais que também se refletiu nas sanções aplicadas por Washington contra o Irã, incluindo seu Banco Central – que em 2005 tinha convertido a metade de suas reservas de dividas em Euros – e que em setembro de 2014 foram declaradas ilegais pelo Tribunal Geral da União Europeia.

Ganhadores e perdedores imediatos

Entre os beneficiários do petróleo barato está a China, que compra cinco milhões de barris por dia e é o maior cliente da Arábia Saudita. Também está aumentando suas compras da Rússia e, pela primeira vez, da Colômbia (30 mil toneladas). Índia e Europa também estão aproveitando do petróleo barato.

Moscou, que aumentou seu orçamento para o próximo ano pensando em um barril de 100 dólares, com 20 ou 40 dólares a menos, sofrerá um déficit orçamentário que se somará aos efeitos das sanções e à queda do preço do rublo. Por isso, vai atuar a partir dos BRICS para desbancar o petrodólar do sistema financeiro mundial, enquanto a China trabalhará para estabilizar o rublo: pedem que seus sócios comerciais usem euro e iene. O Irã, por sua vez, já está trocando o petróleo por bens acordados, eludindo as sanções dos EUA, pois já anunciou a criação de um banco de desenvolvimento com a Rússia, com a finalidade de elevar suas transações comerciais, a construção de novas usinas nucleares e aumentar a compra do petróleo iraniano para exportar para outros países.

Novos movimentos no tabuleiro

Apesar de a China ter diminuído a importação de petróleo iraniano até 30% para “melhorar suas refinarias” - e talvez porque o Irã rompera em maio do ano passado o contrato de 2.500 milhões de dólares com a Corporação Nacional de Petróleo da China por descumprir o mesmo (em seis anos deveria ter perfurado 185 poços), pelo primeira vez na história – os exércitos dos dois países realizaram em setembro uma manobra conjunta no Golfo Pérsico em que participaram Changchun e Changzhou, um destrutor e uma fragata de mísseis. O Irã é a peça fundamental na estratégia chinesa de Marcha para o Oeste” - Ásia central, Ásia do Sul, Oriente Médio e Oceano Índico – e em ampliar o cinturão econômico marítimo na velha Rota da Ceda.

Longe de isolar a Rússia, o Ocidente conseguiu a formação de novas e temíveis alianças: uma aproximação entre Pequim e Moscou sem precedentes após a morte de Stálin, enquanto aumenta cada vez mais a aberta inimizade entre os mandatários e xeques sauditas.

É o final da era do petróleo: estão sendo utilizados os últimos 25% da reserva aproveitável, cuja oferta, se prevê, se esgotará em 25-30 anos. Diante do auge do petróleo e dos cenários que não são possível de se antecipar, a única garantia são os novos conflitos nas regiões produtoras de petróleo.

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quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

Brasil sobe, mas ainda é 120º em ranking de ambiente para negócios





Olá alunos,

Apesar de seu grande mercado consumidor e da abundância de recursos o Brasil ainda se encontra no 120º lugar do
ranking anual do Banco Mundial que avalia a facilidade de fazer negócios no mundo. A postagem de hoje analisa os possíveis fatores, dentre eles a burocracia, que levaram a essa classificação.

Esperamos que gostem e participem.

Fellype Fagundes e Carlos Araújo
Monitores da disciplina "Economia Política e Direito" da Universidade Federal Fluminense

 
O Brasil subiu três posições no ranking anual do Banco Mundial que avalia a facilidade de fazer negócios no mundo. Na edição deste ano do relatório "Doing Business", publicado nesta quarta-feira (29/10), o país está agora em 120º, uma colocação ainda alta, mas que, segundo os autores do estudo, mostra tendência de melhora.

"Apesar de o Brasil não ser um dos melhores, devido à complexidade burocrática, o país continua sendo atraente para investidores, porque é um grande mercado e com possibilidade de crescimento", afirma Rita Ramalho, autora chefe do relatório, à DW Brasil.

Entre os 189 países avaliados, os melhores ambientes para se fazer negócios estão em Cingapura, Nova Zelândia, Hong Kong, Dinamarca e Coreia do Sul. Na América Latina, os melhores colocados foram Colômbia (34), Peru (35) e México (39).

Segundo Ramalho, o principal problema brasileiro é a burocracia e o tempo elevado para a realização de determinados procedimentos. Essa demora é causada muitas vezes pela falta integração de processos nos níveis municipal, estadual e federal.

"Em outros países, como Estado Unidos e México, o processo de abertura de empresas é mais integrado, com apenas um procedimento as informações são enviadas para todos os níveis do governo, porque há uma coordenação interna. No Brasil, houve melhorias nesse aspecto, mas ainda há bastante a ser feito para integrar a comunicação, reduzindo, assim, o número de procedimentos para o empreendedor", afirma a especialista do Banco Mundial.

Lenta mudança

O "Doing Business"avalia a facilidade de fazer negócios nos países, ou seja, se o ambiente é favorável para empresas, através de indicadores que englobam aspectos práticos da criação e operação de uma firma, até uma possível falência, levando em consideração os problemas e procedimentos enfrentados por empreendedores.

A facilidade é medida por meio de indicadores como tempo, custos e exigências legais para abertura de empresa, obtenção de alvarás e crédito e solicitação de serviços públicos, além de encargos pagos anualmente. A avaliação é feita a partir de pequenas e médias empresas instaladas em cidades usadas como base para o relatório. No Brasil as escolhidas foram São Paulo e Rio de Janeiro.

Ramalho afirma que o Brasil tem feito reformas em diferentes aspectos que abrangem os indicadores, no entanto, não teve um avanço expressivo com relação à sua posição no ranking porque, em outros países, as melhorias realizadas no setor foram muito mais impactantes.

"No Brasil, houve melhorias no processo de abertura de empresa, mas ainda são mudanças tímidas e pequenas para ter um impacto significativo. O país, no entanto, está indo na direção certa, mas a velocidade poderia ser mais rápida", opina Ramalho.

Entre os países do Brics, o Brasil só ficou em posição melhor do que a Índia (142), perdendo para África do Sul (43), Rússia (62) e China (90).

Simplificar para atrair

"O Brasil é a sétima maior economia do mundo, e essa posição no ranking não é compatível com seu tamanho", avalia o economista Julio Gomes de Almeida, da Unicamp.

Segundo o especialista, ex-secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda, essa dificuldade de fazer negócios no Brasil não é recente e faz parte de um processo iniciado na década de 1980, quando foi se deixando de lado padrões definidos a nível internacional com relação a infraestrutura, facilidade e simplificação de regras trabalhistas e tributárias.

Almeida diz que, para melhorar sua posição no "Doing Business" e atrair mais empreendedores, o país precisa investir na infraestrutura e na simplificação da legislação tributária e trabalhista.
"Um país que tem o mercado interno que temos, se tiver uma bela infraestrutura e uma facilidade para negócios, além de reduzir incertezas, seria um dos locais com muito mais atratividade e cobiçado para investimentos estrangeiros e também internos. Isso beneficiaria a todos", opina o economista.
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quarta-feira, 27 de agosto de 2014

5 obstáculos para construir um sistema tributário justo no Brasil


 

Olá alunos,

No Brasil a necessidade de uma reforma do sistema tributário é quase um consenso. A postagem de hoje busca indagar de que maneira essa reforma seria mais proveitosa para a sociedade. 
Esperamos que gostem e participem.

Fellype Fagundes e Carlos Araújo
Monitores da disciplina "Economia Política e Direito" da Universidade Federal Fluminense


O sistema tributário de um país é o conjunto de impostos, taxas e contribuições através dos quais o Estado obtém recursos para cumprir suas funções, como a oferta de bens e serviços públicos de qualidade. Portanto, tanto pode ser instrumento para promover a distribuição de renda quanto para ampliar a acumulação capitalista de poucos.

No Brasil, é consenso que o sistema tributário é injusto, qualquer que seja o parâmetro adotado para avaliá-lo. Estudo realizado por Maria Helena Zockum, em 2004, mostra que os mais pobres, com renda de até 2 salários mínimos, eram onerados em 48,8% com impostos, enquanto os mais ricos, com renda superior a 30 salários mínimos, em apenas 26,3%.

Para corrigir essas distorções, não há outro caminho possível que não seja executar uma ampla reforma tributária, pauta que segue emperrada no Congresso devido às diferentes visões de qual deve ser o seu propósito: a reforma tributária pela qual os empresários clamam com o apoio dos setores mais conservadores não é a mesma que irá ajudar a superar o cenário de desigualdade social e regional que ainda impera no país.

Esta semana, a Confederação Nacional da Indústria (CNI) sabatinou os três candidatos que lideram a corrida presidencial e os presenteou com o documento “Proposta da Indústria para as Eleições 2014”, no qual propõe suas 48 reivindicações para o desenvolvimento do Brasil. Confira aqui quais são os 5 principais pontos que dialogam com a reforma tributária e entenda porque eles não favorecem o conjunto da sociedade:

1 – Nova governança para a competitividade.

Quando os setores mais conservadores da sociedade criticam a Política Nacional de Participação Social criada pelo governo Dilma, isso se deve não ao fato de que ela rompa com os trâmites legais da democracia representativa, como eles alegam, mas ao simples fato que considera ouvir a opinião do povo para a tomada de decisões do Executivo.

Quanto o tema é aumentar a competitividade tão almejada pelo setor da indústria, são eles mesmo que propõem a criação de um novo tipo de governança, formada por representantes públicos e privados, que seja priorizada pela presidência da república e tenha liderança executiva reconhecida, foco e prioridade para a ação, flexibilidade para superar obstáculos e, principalmente, poder decisório.

O problema é que a proposta reivindica que o grupo seja restrito e limita a representação social a dos empresários. Outros segmentos, como o dos trabalhadores, ficariam completamente alijados de quaisquer decisões que afetariam a vida de todos!

2 – Não pagamento de impostos sobre investimentos

Para aumentar a competitividade nacional, os empresários não querem pagar impostos. Em outras palavras, querem deixar que os outros setores da sociedade, como os dos trabalhadores e aposentados, financiem todos os serviços prestados pelo Estado. As desonerações já reduzem – e muito – os recursos para o financiamento das políticas públicas sociais. E seus patamares vêm crescendo nos últimos anos.

Como a discussão sobre a reforma tributária não ocorre de forma ampla, aberta à participação de toda a sociedade, as mudanças acabam ocorrendo nos gabinetes dos ministros, onde os empresários têm mais acesso e influência do que outros setores. Dados da Receita Federal mostram que as desonerações e isenções somaram 1,69% do PIB em 2005, 2,77% em 2008, 3,20% em 2009 e 3,42% em 2010.

Para se ter uma ideia do prejuízo que isso representa para o país, os 3,42% relativos às isenções que não entraram no PIB  em 2010 (cerca de R$ 114 bilhões) representavam mais que o dobro do orçamento inicial previsto para o Ministério da Educação (R$ 50,9 bilhões) e ficaram bem próximos do dobro do orçamento do Ministério da Saúde (R$ 66,7 bilhões).

Ainda há outras variantes graves na política de isenções específica para os investimentos. A população de um estado que aceita sediar uma siderúrgica altamente poluente, por exemplo, não será beneficiada com os serviços públicos melhores que, pelo menos em tese, seriam possíveis de serem financiados pelo pagamento dos impostos gerados pela atividade econômica.

3 – Não pagamento de impostos sobre as exportações

Os empresários também não querem pagar impostos sobre as das exportações. É verdade que, isentos, os produtos brasileiros se tornam mais competitivas no mercado internacional. Mas o culto para o desenvolvimento regional é grande, principalmente nos estados em que a pauta se reduz aos produtos primários ou commodities. Tanto que os estados beneficiados pelas desonerações já previstas pelas legislações vigentes, em especial a Lei Kandir, são os mais pobres do país.

Os estados do norte, por exemplo, não obtém o retorno necessário com a exportação do minério que possuem. A comparação com o retorno proveniente da exploração de petróleo é gritante. Dados do Ministério de Minas e Energia revelam que os royalties minerais não chegam a representar 2% do valor da produção do setor, enquanto as rendas do petróleo representam cerca de 20%.

Além disso, as medidas que desoneram exportações de produtos primários e semielaborados terminam incentivando a exportação de commodities em detrimento da agregação de valor no país. Em outras palavras, não estimulam em nada a industrialização. Dados do Ministério de Minas e Energia, revelam que, em 2008, foram exportados 282 milhões de toneladas de minério de ferro, o seria suficiente para produzir 170 milhões de toneladas de aço. Essas transações equivaleram também à exportação de 680 mil empregos.

4 – Redução do custo do trabalho

De todas as propostas dos empresários para a reforma tributária, a redução do custo do trabalho é a que afeta de forma mais gritante a vida dos brasileiros mais pobres, porque elimina parte da proteção social que resultou de anos de luta sindical e trabalhista. Dentre as medidas apontadas, eles ressaltam a desoneração da folha de pagamento, o que deixaria apenas a cargo dos próprios trabalhadores e da sociedade por meio do estado, o financiamento das políticas sociais como INSS e Fundo de Garantia, por exemplo.

A proposta completa propõe dogmas neoliberais como associar a política de reajuste salarial a ganhos de produtividade. Em outras palavras, só dar aumento ao trabalhador que conseguir superar as metas impostas pela empresa, o que criará também a remuneração diferenciada para a mesma função. Os empresários querem, entre outras medidas, adotar jornadas de trabalho diferenciadas, com o fim do mínimo de 1 hora de descanso no almoço, por exemplo, e contratar trabalhadores que possam desempenhar múltiplas funções ao mesmo. Também apresentam marco legal para as terceirizações que, praticamente, acaba com o trabalho com carteira assinada em todas as atividades.

5 - Manter os mais pobres pagando mais

Como já foi dito, a principal razão para o sistema tributário brasileiro ser tão injusto é que os mais pobres pagam um percentual maior de impostos do que os mais ricos. Isso ocorre porque o país privilegia a taxação da circulação de bens e serviços, em que todos os brasileiros pagam a mesma alíquota, ao invés da tributação da renda e da propriedade, na qual quem tem mais paga mais, de forma progressiva.

Em 2008, por exemplo, a carga tributária do país foi da ordem de 34,9% do PIB. As incidências sobre bens e serviços somaram 16,3% do PIB e responderam por 46,8% do que foi coletado, enquanto os impostos sobre a renda e a propriedade resultaram em 8,9% do PIB ou 25,6% da carga global.

O imposto de renda, mais especificamente, foi de 2,35% do PIB ou 6,7% do total de impostos. Nos países da União europeia, a título de comparação, os diferentes impostos sobre a renda recolheram, em média, quase 9% do PIB e somaram 25% da receita de impostos. Da mesma forma, os impostos sobre propriedade, no Brasil, coletaram cerca de 1,2% do PIB e sua participação na carga total foi de apenas 3,5%. Já nos países da União Europeia, os impostos sobre propriedade alcançaram, em média, 1,9% do PIB ou 5,4% da arrecadação global. Isso faz a diferença: lá, os que ganham mais e tem mais propriedades contribuem mais e, por isso, a desigualdade social é muito menor.

Para agravar, no Brasil, o próprio Imposto de Renda sobre Pessoa Física (IRPF) cobra mais dos pobres do que dos ricos. Ainda que os últimos sejam penalizados com alíquotas mais altas, também são beneficiados com uma série de isenções que não atingem aqueles que se servem, por exemplo, dos sistemas públicos de educação e saúde. Os empresários sabem que isso é injusto, mas não propõem nenhuma medida para corrigir a distorção. Até falam em simplificar e modernizar o Imposto de Renda sobre Pessoa Física (IRPF). Mas é só isso. Por eles, grandes fortunas e grandes propriedades seguem subtaxadas.

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quinta-feira, 31 de julho de 2014

Quatro estratégias para aumentar produtividade no Brasil





Olá alunos,

A produtividade é um importante fator para aceleração do crescimento econômico. A postagem de hoje expõe algumas experiências que podem ajudar no
problema do ajuste das habilidades dos trabalhadores às necessidades das empresas.

Esperamos que gostem e participem.

Fellype Fagundes e Carlos Araújo
Monitores da disciplina "Economia Política e Direito" da Universidade Federal Fluminense

Nos anos 80, o Brasil e a Coreia do Sul tinham índices de produtividade semelhantes. Hoje, o que um coreano produz em um dia, um brasileiro produz em três, segundo dados da entidade americana de pesquisas Conference Board.

"O Brasil e outros países da América Latina precisam olhar urgentemente para experiências de países de fora da região se quiserem impulsionar seus índices de produtividade”, disse à BBC Carmen Pagés, especialista em mercado de trabalho do Banco Inter-Americano de Desenvolvimento (BID).

"Há experiências muito valiosas em países como a Coreia e a Austrália que poderiam ajudar os brasileiros principalmente a alinhar os conhecimentos e habilidades desenvolvidos em seu sistema educacional ao que as empresas precisam para produzir mais e melhor."

Em um cenário de taxas de desemprego historicamente baixas, há certo consenso entre economistas brasileiros de que para acelerar o crescimento será preciso aumentar a produtividade dos trabalhadores no país.

"Pela primeira vez na nossa história falta mão de obra - o que nos obriga a aproveitar nossos trabalhadores de forma mais eficiente", diz Hélio Zylberstajn, professor de economia da Universidade de São Paulo (USP).

É por isso que a "produtividade" tornou-se um dos temas centrais do atual debate econômico.
"Qualificar melhor os trabalhadores brasileiros é hoje um dos nossos grandes desafios - e é sempre importante conhecer a experiência dos outros países nessa área", diz Silvani Pereira, secretário substituto de Políticas Públicas de Emprego do Ministério do Trabalho e Emprego.

Pereira explica que o ministério tem promovido visitas e parcerias com outros países buscando se informar sobre seus sistemas públicos de emprego, qualificação profissional e estratégias de treinamento dentro da empresa.

"Mas é claro que é crucial fazer a ressalva de que nem tudo o que tem sucesso e ajuda a ampliar a produtividade em um lugar pode ser automaticamente aplicado em outro em função de especificidades econômicas, históricas e sociais."

Abaixo, a BBC Brasil listou quatro estratégias sugeridas por especialistas em um evento promovido pelo BID em São Paulo. Segundo eles, poderiam inspirar o Brasil e outros países latino-americanos em sua busca por mais produtividade.

Eles ressaltam que não se tratam de experiências que poderiam ser implantadas automaticamente por aqui, mas soluções que podem ajudar o país e a região a encontrarem respostas originais ao problema do ajuste das habilidades dos trabalhadores às necessidades das empresas:

Valorização e flexibilização do ensino técnico

Para Carmen Pagés, do Banco Interamericano de Desenvolvimento, a falta de trabalhadores de formação técnica é hoje um dos fatores que afeta a produtividade na América Latina.

Segundo ela, países como a Coreia do Sul, a Austrália, o Canadá, a Nova Zelandia, a Alemanha e a Suíca, que integraram "perfeitamente" o ensino técnico em seu sistema educativo estão entre os que melhor conseguiram alinhar a formação dos trabalhadores às necessidades das empresas.

"Nesses países o sistema é muito flexível", diz Pagés. "Você pode passar do acadêmico ao técnico e do técnico ao acadêmico com facilidade e há mais integração entre esses dois ramos - o que ajuda a evitar o estigma em relação ao ensino técnico que existe no Brasil, além de reduzir o problema do 'isolamento' dos ambientes acadêmicos do mercado."

Pagés diz que na Suíça algo em torno de 60% dos estudantes do ensino médio optam pelo ramo técnico.

"Eles sabem que se quiserem trabalhar, isso lhes dará mais possibilidade de inserção no mercado, mas também sabem que se, depois disso, resolverem voltar para a sala de aula para seguir o ramo das ciências humanas, ou debater aspectos teóricos ligados a sua profissão, por exemplo, a transição será simples."

Na Austrália, os estudantes podem transferir créditos dos cursos técnicos da chamada Technical and Further Education Commission (Tafe) para os cursos de universidades regulares, o que permite uma combinação entre os dois tipos de ensino.

"As pessoas nos procuram em qualquer etapa de sua vida profissional: temos cursos para quem tem 18 anos e para quem tem 40 e quer ampliar suas possibilidades profissionais", explicou à BBC o australiano Peter Holden, diretor da Tafe.

O ensino técnico começou a se expandir na Austrália nos anos 70. Nos anos 90, foram feitos ajustes para garantir que os conteúdos dos cursos atendiam a demanda das indústrias locais (até então o foco do sistema era seu papel social).

"Nós passamos a conversar mais com as empresas e, como alguns de nossos professores foram trazidos da indústria, eles também se encarregaram de nos manter informados sobre quais conhecimentos e habilidades são requisitados."

Sistema de certificados

Para tirar uma carteira de motorista, em geral o candidato faz um teste de direção. Se mostrar que sabe dirigir, recebe o documento, se cometer muitos erros, não recebe. Não interessa se ele aprendeu a dirigir com o avô e estudou sozinho as leis de trânsito ou se fez 30 aulas em uma auto-escola.

Na Coreia do Sul, um sistema de certificados nacionais para o ensino técnico parece funcionar de uma maneira semelhante, como explicou Joon-Chul Eom, do Ministério do Emprego e Trabalho da Coreia do Sul, em evento promovido pelo BID em São Paulo.

Os candidatos fazem uma série de provas orais e escritas após comprovar que têm experiência prática ou estudaram determinada área. Se passarem, recebem certificados nacionais que atestam suas habilidades e conhecimentos específicos.

Um trabalhador pode ser certificado em gastronomia coreana, por exemplo. Outro, em serviços de engenharia elétrica ou mecatrônica. As provas são rígidas, e os índices de aprovação podem chegar a 10% em alguns casos.

No caso do ensino técnico, a certificação fica a encargo do Ministério do Trabalho, mas também há certificados para as profissões de nível superior, que são em geral administrados por outros ministérios.

O sistema é uma forma de garantir e padronizar a qualidade dos profissionais formados no país, facilitar a busca e a colocação no mercado de trabalhadores com habilidades específicas e ao mesmo tempo estimular os coreanos aprimorarem suas habilidades - uma vez que elas podem ser formalmente "reconhecidas".

É claro que há críticas. Um estudo da OCDE de 2012, por exemplo, defendia que as certificações de ensino superior seriam uma "duplicação desnecessária", uma vez que os alunos já seriam avaliados em sua instituição de ensino.

"Trata-se de um sistema interessante e que mereceria ser estudado mais a fundo, embora no Brasil acho que seria impensável implantar algo nessa escala", diz Hélio Zylberstajn, da USP. "Quem ficaria encarregado dos certificados?"

Educação nas empresas

O australiano Peter Holden, da entidade governamental Tafe, diz que em seu país uma das experiências mais bem sucedidas na área de formação do trabalhador são as parcerias com empresas para o fornecimento de cursos dentro do ambiente de trabalho.

"Há cursos em áreas específicas ou de formação mais básica. Algumas empresas nos indicaram um grupo de funcionários que gostariam que recebessem noções de aritmética, por exemplo", diz Holden.

Segundo Holden, o esquema é financiado conjuntamente pelo governo e as empresas.

"Muitos trabalhadores viram seus trabalhos mudarem completamente em função da adoção de novas tecnologias - e esses esquemas não só aumentam a produtividade das empresas, mas também evitam que sejam demitidos e aumentam suas chances de uma promoção."

Para Zylberstajn, da USP, os esquemas de treinamento dentro das empresas estão entre as experiências que mais poderiam ser aproveitadas no Brasil.

"Um dos problemas do nosso ensino técnico é que as instituições de ensino e o setor privado conversam pouco, então o que os alunos aprendem na sala de aula nem sempre é válido para o mercado", diz o economista.

Silvani Pereira, secretário substituto de Políticas Públicas de Emprego do Ministério do Trabalho e Emprego, concorda que é preciso fazer avanços nessa área.

"O treinamento do trabalhador dentro da empresa contribui para promover ganhos de produtividade já que o alinhamento entre o que é ensinado e o que as empresas precisam é perfeito. Além disso, tal sistema contribui para uma redução da rotatividade dos trabalhadores", diz.

Esquemas de aprendizagem

Nessa área, a Alemanha parece ser, de longe, o grande modelo. Lá os jovens têm a possibilidade de aprender um trabalho dentro de um programa de aprendizagem conforme cursam o ensino fundamental.

Os alunos dividem seu tempo entre as escolas e as empresas, onde são orientados por um profissional mais experiente para aprender um entre os 344 ofícios oferecidos pelo programa. Eles recebem um salário e, ao finalizar o curso, têm a opção de seguir a carreira na área.

Segundo Geoff Fieldsend, do British Council, esse é um dos muitos esquemas adotados para melhorar a questão da empregabilidade dos jovens, mas seus resultados ainda precisam ser avaliados.