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terça-feira, 9 de junho de 2015

Cinco sinais de que os EUA não estão conseguindo superar a crise estrutural capitalista.



Olá alunos,

As especulações com o petróleo, as pressões econômicas sobre a Rússia e a influência geopolítica sobre o Oriente Médio: nada disso tem surtido mais efeito. Com todos esses acontecimentos recentes, a postagem de hoje pretende entender como estes influenciam no nosso sistema vigente, o capitalista.

Agradecemos a sugestão dessa notícia que foi enviada pelos alunos Guilherme Paradella, Marcos Gomes, Anderson Silva, Camilo Dias e Elaine das Neves da turma P1 do primeiro período, da Faculdade de Direito da Universidade Federal Fluminense.

Esperamos que gostem e participem.
Joyce Borgatti e Palloma Borges. Monitoras da disciplina “Economia Política e Direito” da Universidade Federal Fluminense.emails de revendas de carros

As últimas semanas trouxeram notícias surpreendentes, mesmo para aqueles acostumados a analisar os eventos geopolíticos. É muito difícil fugir da conclusão de que atingimos uma etapa crítica na transição entre o sistema-mundo capitalista que conhecemos e algo que ainda está por vir. Parece ter expirado o prazo de validade do modelo adotado pelos países ricos para lidar com a crise estrutural que se tornou mais visível a partir de 2008, modelo esse que inclui a criação de dinheiro sem qualquer lastro em riquezas reais, a negação maciça da existência de qualquer problema maior pela mainstream media e a repressão policial crescente como única “política social” para lidar com a crescente pobreza nessas sociedades outrora tão afluentes. Vários são os sinais de que atingimos o “fim do começo” da transição.

1. Desespero norte-americano em Lausanne?

Um “acordo para firmar um acordo” foi assinado em Lausanne, Suíça, entre o governo do Irã e o grupo de potências conhecido por P5 1: China, EUA, França, Rússia, Reino Unido e Alemanha. Na realidade, as dificuldades nas discussões sempre foram entre EUA e Irã. Este último deseja prosseguir com seu programa nuclear que alega ter finalidades pacíficas. Os EUA há tempos consideram o Irã um dos integrantes do dito “eixo do mal” e exige o fim das atividades nucleares que considera suspeitas. A surpresa vem da análise minuciosa do texto assinado: compreende-se porque o governo de Teerã o celebra como uma vitória. Após anos exigindo e comandando sanções contra o Irã, negando-lhe o benefício de qualquer dúvida, Washington assinou um texto que essencialmente baseia-se em apenas postergar o momento no qual Teerã poderá desenvolver sua bomba se assim o desejar. Não surpreendentemente, o governo de Israel, os republicanos norte-americanos e mesmo alguns democratas já anunciaram sua oposição ao texto e sua recusa em aceitar a assinatura do texto definitivo em três meses. Por que Washington cedeu tanto em Lausanne? Os críticos de Obama argumentam que o presidente teria colocado seu desejo de alcançar um importante resultado diplomático, um “legado” qualquer, acima dos interesses nacionais. Pouco provável. Mais razoável é supor que o governo norte-americano já não tem condições de impor seus interesses no Oriente Médio e busca desesperadamente a aparência de uma vitória diplomática. Chega a ser impressionante que o governo norte-americano tenha assinado um documento, ainda que não definitivo, no qual aparentemente o Irã não terá a obrigação de franquear suas instalações militares aos inspetores internacionais e que cala sobre o reconhecimento de Israel. Tudo isso enquanto EUA apoiam o ataque saudita a grupos iemenitas que por sua vez são apoiados por Teerã. É difícil não perceber nesse acordo uma espécie de fadiga dos Estados Unidos em relação à disputa geopolítica no Oriente Médio.

2. A queda da demanda mundial e o estouro da “bolha do xisto”


Vendido como uma solução “mágica” para o problema de oferta mundial de petróleo, ainda que altamente poluente, o petróleo extraído de depósitos de xisto (“tight oil”) revela-se como mais uma bolha insuflada pela indústria financeira. As denúncias já vinham sendo feitas há tempos, mesmo em publicações de negócios como Forbes (vide o texto “Why shale oil boosters are charlatans in disguise”, publicado em janeiro de 2014). Com a queda mundial da demanda econômica, que pode ser vista, por exemplo, em um preço muito baixo para o frete marítimo, o preço do petróleo também caiu. Arábia Saudita e Rússia podem ainda lucrar com seu petróleo convencional cujos custos de produção são baixos, mas os altos custos da produção de xisto já cobram seu preço: o número de sondas de perfuração em operação é o mais baixo desde 2011. A inviabilidade do petróleo do xisto como alternativa ao petróleo convencional ficou clara nesse evento. E muito da esperança norte-americana de uma recuperação real de sua economia e de seu poder geopolítico baseava-se nisso.

3. Mais uma “recuperação espetacular” da economia norte-americana vira pó em semanas

Em dezembro de 2014 jornais do mundo inteiro publicaram a notícia de que a economia norte-americana vinha crescendo a taxas anualizadas de 4% (alguns diziam 5%). Comentaristas eufóricos explicavam que finalmente a economia dos EUA tinha saído da crise, que seu crescimento seria saudável e sustentado. Previa-se um 2015 róseo para a economia norte-americana. Para quem segue os eventos internacionais, entretanto, parecia apenas a manifestação de um ritual semestral que se repete desde a crise de 2008: alguns indicadores econômicos positivos isolados são analisados fora de seu contexto maior, análises estridentemente eufóricas são publicadas na mídia e meses depois, quando a “recuperação” mostra-se inexistente, todos se esquecem do assunto. Esta vez, porém, parece ter sido a gota d’água: escrevendo no excitável Financial Times, o comentarista Gavyn Davies recentemente (29/03/2015) afirmou que as expectativas otimistas do Banco Central dos EUA (Federal Reserve) para 2015  já estavam sendo desmentidas pelos dados reais.  Quem ainda acreditará quando The Economist e Wall Street Journal anunciarem novamente o fim da “recessão”? A verdade, dura e incontornável, é que não há recuperação econômica real à vista, seja nos EUA, na Europa ou no Japão.

4. A criação do AIIB e o vexame público de Washington

O AIIB - abreviatura em inglês de Banco da Ásia para Investimento em Infraestrutura - era uma proposta do governo da China lançada no final de 2013 para contornar as limitações encontradas pelo país asiático em instituições lideradas pelo ocidente, tais como Banco Mundial, Fundo Monetário Internacional e Banco para o Desenvolvimento da Ásia. Com sede em Beijing, a proposta sempre foi resistida pelos Estados Unidos. Finalmente lançado em outubro de 2014, o banco atraiu países asiáticos com grandes economias, tais como Índia e Indonésia. Mas a grande surpresa viria em março de 2015: a despeito das ressalvas públicas feitas por Washington à instituição, países tradicionalmente aliados aos EUA, como Reino Unido, Austrália, Coreia do Sul, Alemanha, França e até Taiwan submeteram ou decidiram submeter suas candidaturas a membros do banco. Até mesmo o ex-Secretário do Tesouro dos EUA, Larry Summers, publicou um texto em seu blog afirmando que “o mês passado [março de 2015] pode ser lembrado como o momento no qual os Estados Unidos perderam sua posição de garantidores do sistema econômico mundial”, em grande parte baseando sua análise nos eventos que cercaram a criação do banco.

5. E a economia da Rússia não entrou em colapso


Esquecida pela mídia ocidental, a guerra econômica contra a Rússia parece ter fracassado. O rublo continua existindo e o governo de Moscou não mostra qualquer sinal do enfraquecimento tão sonhado pelo ocidente. A situação na Ucrânia, cuja integração à União Europeia parece ter desaparecido da pauta de discussões em Bruxelas, evolui para uma verdadeira guerra interna pelo poder, onde “oligarca devora oligarca”. O leste do país tornou-se de fato independente. A histeria ocidental anti-Rússia parece ter consumido seu combustível, ao menos por enquanto.  Com isso, mais uma trapalhada geopolítica ocidental perde fôlego, embora a proximidade de eleições em países europeus importantes sugira que políticos desesperados possam pensar em ações desesperadas.

O fim do começo é também o fim do período pós-crise de 2008 durante o qual os governos ocidentais acreditavam em sua capacidade de recuperação. A próxima etapa será, salvo surpresas, a de uma difícil negociação com suas populações, que finalmente começam a entender que o passado não retornará, que os níveis de vida pré-2008 foram embora para sempre e que o futuro não será mais o que costumava ser. Desnecessário dizer, esses serão momentos de extraordinário risco, de grandes oportunidades e de permanente surpresa para todos que vivem nestes tempos tão intensos.   

quinta-feira, 30 de abril de 2015

PIB cresce apenas 0,1% em 2014






Olá alunos,
A economia brasileira fecha o ano muito próxima da estagnação. A desaceleração na indústria puxou o Produto Interno Bruto para baixo, com queda de 1,2%. 
Num ano de crise como o que estamos atravessando, a postagem de hoje visa analisar tal temática, demonstrando quais setores da economia ajudaram ou não na referida queda.

Esperamos que gostem e participem.

Joyce Borgatti e Palloma Borges
Monitoras de “Economia Política e Direito” da Universidade Federal Fluminense.

A economia brasileira ficou praticamente estagnada em 2014. Segundo dados divulgados nesta sexta-feira (27/03) pelo IBGE, o Produto Interno Bruto (PIB) cresceu apenas 0,1% em 2014, na comparação com o ano anterior, somando 5,52 trilhões de reais.

É o pior resultado desde 2009, auge da crise econômica mundial, quando o PIB brasileiro registrou queda de 0,2%. É também o pior resultado durante o governo da presidente Dilma Rousseff.

No quarto trimestre de 2014, a soma de todos os bens e serviços produzidos no país aumentou 0,3% na comparação com os três meses imediatamente anteriores, mas registrou queda de 0,2% quando comparada ao acumulado do último trimestre de 2013.

Os principais setores que puxaram a economia em 2014 foram serviços, com alta de 0,7%, e agropecuária, que avançou 0,4%. A indústria sofreu retração de 1,2% e impediu um crescimento anual maior do PIB.

Já sob a ótica da demanda, houve um avanço de 0,9% no consumo das famílias e um crescimento de 1,3% no consumo do governo no acumulado de 2014. A formação bruta de capital fixo, que representa os investimentos, caiu 4,4%. As exportações caíram 1,1%, e as importações tiveram uma queda de 1% no período.

O IBGE fez os cálculos de 2014 com base em uma nova metodologia internacional, que está sendo adotada por diversos países, e também revisou os dados relativos ao PIB nos dois anos anteriores. Em 2012, a taxa de crescimento passou de 1% para 1,8%. Em 2013, o PIB passou de 2,5% para 2,7%.




Defendido pelo PT, financiamento de campanha 100% público só existe em um país


Olá alunos,

Em meio ao escândalo de corrupção na Petrobras (de onde recursos teriam sido desviados para financiar partidos), o PT defende hoje que as campanhas eleitorais sejam financiadas 100% por dinheiro público. 
A postagem a seguir vem apresentar esse projeto para que sejam feitas reflexões acerca do assunto num momento tão crítico para o nosso país, como o que estamos vivendo hoje.

Esperamos que gostem e participem.

Joyce Borgatti e Palloma Borges.
Monitoras de “Economia Política e Direito” da Universidade Federal Fluminense.



Em meio ao escândalo de corrupção na Petrobras (de onde recursos teriam sido desviados para financiar partidos), o PT defende hoje que as campanhas eleitorais sejam financiadas 100% por dinheiro público.
O sistema só existe em um lugar do mundo, o Butão, país que apenas em 2008 deixou de ser uma monarquia absolutista e realizou suas primeiras eleições. Conforme a BBC Brasil mostrou na semana passada, 39 países proíbem doações de empresas. No entanto, a proibição também de contribuição de pessoas físicas é uma exceção só presente no país asiático.

Qual o princípio do financiamento público?

O financiamento público de partidos e/ou candidatos, em pequena ou larga escala, é adotado em 118 países, de acordo com um monitoramento realizado pelo Instituto Internacional pela Democracia e Assistência Eleitoral (Idea, na sigla em inglês). Em alguns deles, como México, Colômbia, Itália e Espanha, chegam a representar mais de 80% dos gastos das campanhas.

No Brasil, os partidos têm acesso a doações privadas e a recursos públicos - prevendo dificuldades de obter financiamento de empresas após a Operação Lava Jato, senadores e deputados decidiram triplicar a verba do fundo partidário neste ano, para R$ 867,56 milhões, há duas semanas.
Mas quais as vantagens e desvantagens de aumentar o financiamento público no Brasil? A BBC Brasil preparou um guia sobre o assunto. Confira abaixo.

O objetivo do financiamento público é contrabalancear - ou mesmo anular - a influência do poder econômico nas eleições. Os defensores de um modelo majoritariamente ou totalmente público argumentam que doações privadas desvirtuam a democracia, pois as grandes corporações são muito mais ricas que os indivíduos e, assim, têm mais recursos para influenciar nas eleições.

O PT defende que o financiamento seja exclusivamente público, ou seja, que nem mesmo pessoas físicas possam doar. A proibição de doações de empresas também é defendida por centenas de movimentos sociais (como UNE, CUT e MST) que integram a Campanha da Constituinte - proposta de convocação de uma Assembleia exclusiva para votar uma reforma política. Mas não há consenso entre eles sobre doações de pessoas físicas.

"Para nós, o financiamento privado é a base da corrupção. Empresas de diversos setores financiam os políticos e depois cobram seus interesses no Congresso. Isso é totalmente antidemocrático porque o voto da empresa passa a valer mais que o do eleitor", afirma Paola Estrada, integrante da coordenação nacional da campanha.

Quais seriam as desvantagens?

Entre os defensores do financiamento público, há também quem aponte potenciais riscos nesse modelo. Para o Instituto Internacional pela Democracia e Assistência Eleitoral (Idea, na sigla em inglês), uma dependência excessiva de recursos públicos pode levar os políticos e seus partidos a se afastarem da sociedade.

"Quando administrado e distribuído de forma adequada, o financiamento público dos partidos políticos pode ser um bom contrapeso para doações privadas e também pode aumentar o pluralismo político. No entanto, os partidos políticos não devem perder o contato com seus eleitores, ou tornar-se excessivamente dependentes de financiamento público", nota um documento de janeiro do instituto.

O diretor da área de Partidos Políticos do Idea, Sam van der Staak, defende um modelo que equilibre recursos públicos e doações de membros dos partidos, empresas e pessoas físicas - limitadas a um teto baixo, para evitar que um grupo tenha mais peso que outro.

Como distribuir os recursos? 

Outro risco do modelo de financiamento essencialmente público é dar pouco espaço para o surgimento e crescimento de novos partidos, na medida em que a distribuição dos recursos tende a ser proporcional ao tamanho das bancadas no Congresso.

Por outro lado, dividir igualmente também não é considerada a melhor maneira de distribuição. "Essa abordagem (divisão igualitária) cria o risco de que partidos sejam criados apenas para obter financiamento do Estado. Além disso, também pode ser um desperdício significativo usar recursos públicos para apoiar partidos e candidatos que não têm nenhum apoio entre o eleitorado", nota o relatório do Idea.

A opção para contornar isso, aponta o instituto, é repartir parte dos recursos públicos igualmente e parte proporcionalmente. Manter a possibilidade de doações de pessoas físicas ou mesmo de empresas, sob um limite baixo, é também uma forma de permitir que o financiamento eleitoral tenha mais dinamismo.

No Brasil, a distribuição de recursos públicos via fundo partidário se dá da seguinte forma: 5% são repartidos igualmente entre os 32 partidos existentes, e 95% são distribuídos na proporção dos votos obtidos na última eleição para a Câmara dos Deputados.

Como isso tem funcionando em outros países?

Entre os 180 países monitorados pelo Idea, apenas um tem financiamento de campanha exclusivamente público: o Butão. Essa pequena nação asiática, espremida entre China e Índia, realizou suas primeiras eleições em 2008, quando o sistema político passou de monarquia absoluta para monarquia constitucional.

Outros países, embora não adotem o modelo 100% público de financiamento, tem níveis altos de participação pública nos fundos de campanha. No México, por exemplo, 95% das campanhas às eleições presidenciais de 2012 foram bancadas com recursos do Estado. Esses índices também foram altos nos últimos anos na Colômbia (89%) e no Uruguai (80%). Em países europeus como Espanha, Bélgica, Itália e Portugal, os fundos públicos também respondem por mais de 80% dos custos das campanhas.

Existem vários modelos de distribuição desses recursos. Há países, como Alemanha, em que o Estado transfere para o partido um euro para cada euro arrecadado de doadores (prática chamada de matching funds). Já na Holanda, os repasses dependem do número de pessoas filiadas ao partido.

Na França, a lei institui um teto para os gastos de campanha, que varia de acordo com o tipo de eleição. A partir desse teto é calculado o reembolso com dinheiro público das despesas eleitorais do candidato. No caso da eleição presidencial, por exemplo, em 2012 foi definido que cada candidato poderia gastar até 16,8 milhões de euros (R$ 58,8 milhões, na cotação atual) no primeiro turno e 22,5 milhões de euros (R$ 78,75 milhões) no segundo. A título de comparação, a campanha da presidente Dilma Rousseff em 2014 consumiu R$ 350 milhões.

Na França, cada candidato que conseguisse 5% dos votos, poderia receber 50% do valor gasto em reembolso. As regras determinam que o candidato que ultrapassar o teto de gastos da campanha, não pode receber o financiamento público de parte de suas despesas. Foi exatamente o que ocorreu com o ex-presidente Nicolas Sarkozy, que teve suas contas da campanha presidencial de 2012 rejeitadas pelo Conselho Constitucional.

Quanto dinheiro público os partidos já recebem no Brasil?

Partidos políticos já recebem hoje dinheiro público no país, mas a maioria dos recursos que bancam as campanhas eleitorais vem de doações de empresas.

Nas últimas eleições, partidos e candidatos arrecadaram cerca de R$ 5 bilhões de doações privadas, quase na sua totalidade feitas por empresas. Além disso, receberam no ano passado R$ 308 milhões de recursos públicos por meio do Fundo Partidário, enquanto o tempo "gratuito" de televisão custou R$ 840 milhões aos cofres da União por meio de isenção fiscal para os canais de TV.

Em 2015, porém, haverá um salto expressivo na verba do Fundo Partidário. O Congresso aprovou neste mês que o orçamento previsto inicialmente pela União fosse triplicado, passando de R$ 289,56 milhões para R$ 867,56 milhões.

O aumento teria sido motivado pela dificuldade que os partidos estão enfrentando para se financiar após a operação Lava Jato - que investiga desvio de recursos na Petrobras - ter colocado no banco dos réus executivos de grandes empresas doadoras.

O relator do Orçamento, senador Romero Jucá (PMDB-RR), disse que o aumento refletiu uma demanda de diversos partidos e que representa um teste para a tese do financiamento público de campanha.

Quanto custaria um modelo com mais financiamento público?

O PT não tem hoje uma estimativa de quanto seria o custo de um financiamento exclusivo de campanha, de acordo com a vice-presidente nacional do PT, Gleide Andrade, responsável por coordenar as discussões sobre reforma política dentro do partido. Segundo ela, isso dependerá de outras alterações que podem ser feitas no sistema eleitoral, como por exemplo modificar a forma de eleger os deputados. "Mas uma coisa é certa: será uma campanha bem mais barata do que a que temos hoje", afirmou.


Outro projeto de lei que já tramita no Parlamento - o PL 268, apresentado em 2011 como conclusão dos trabalhos de uma comissão de reforma política no Senado - sugere que o financiamento de campanha será exclusivamente público e que o valor total a ser distribuído seguirá o seguinte cálculo: total de eleitores inscritos até 31 de dezembro do ano anterior vezes R$ 7,00 a valores de janeiro de 2011.

Atualizando esse valor pela inflação até 2014 (R$ 8,40) e considerando o número de eleitores que puderam votar no ano passado (141,8 milhões), as últimas eleições teriam consumido R$ 1,2 bilhão, segundo a regra do PL 268/2011.

Aumentar o peso do financiamento público exigiria outras mudanças?

Mudar o sistema de financiamento não é algo trivial. Especialistas no assunto dizem que extinguir as doações por empresas e aumentar o peso do dinheiro público obrigaria necessariamente a alterar as regras das eleições para o Legislativo.

Claudio Abramo, ex-diretor da Transparência Brasil, diz que teria que ser adotado a eleição em lista - método em que o voto vai para o Partido, que decide qual será a ordem dos deputados e vereadores eleitos pela legenda. Tal mudança seria necessária por causa da dificuldade de distribuir e fiscalizar os recursos para todos os candidatos. Dessa forma, os partidos que centralizariam a gestão dos recursos públicos.

O filósofo e cientista político Marcos Nobre discorda da tese de que o financiamento exigiria lista fechada. "É perfeitamente possível fiscalizar (a distribuição de recursos) desde que você torne os partidos responsáveis pela atuação de cada um de seus candidatos", argumenta.

domingo, 26 de abril de 2015

Escritor uruguaio Eduardo Galeano morre aos 74 anos. Jornalista, historiador e ensaísta morreu nesta segunda (13.04.15) em Montevidéu. Ele é autor da obra "As veias abertas da América Latina".



Olá alunos, 

Na segunda-feira, dia 13 deste mês, morreu aos 74 anos em Montevidéu o escritor uruguaio Eduardo Galeano. Autor do livro "As veias abertas da América Latina", obra relevante para o campo da Economia Política, que foi escrito no início dos anos 70, década na qual boa parte da América Latina era governada por Ditaduras Militares.

Esperamos que gostem e participem.

Joyce Borgatti e Palloma Borges.
Monitoras da Disciplina Economia Política e Direito da Universidade Federal Fluminense. 


Nascido em Montevidéu no dia 3 de setembro de 1940, Eduardo Galeano começou muito jovem no jornalismo e nos mais variados gêneros literários como o ensaio, a poesia e a narrativa. Ensaísta, historiador e ficcionista, publicou mais de 30 livros, quase todos traduzidos no Brasil. Ele é autor da obra "As veias abertas da América Latina", em que denunciou a opressão e amargura do continente e que foi traduzido para dezenas de idiomas.

Em sua cidade natal, foi chefe de redação do semanário "Marcha", na década de 1960, e diretor do jornal "Época". Aos 14 anos, Galeano já vendia suas primeiras charges políticas para jornais uruguaios como El Sol, do Partido Socialista.

Dilma Roussef divulgou um comunicado sobre a morte de Eduardo Galeano: “Hoje é um dia triste para todos nós, latino-americanos. Morreu Eduardo Galeano, um dos mais importantes escritores do nosso continente. É uma grande perda para todos que lutamos por uma América Latina mais inclusiva, justa e solidária com os nossos povos. Aos uruguaios, aos amigos e à nossa imensa família latino-americana, quero prestar minhas homenagens e lembrar que continuamos caminhando com os olhos no horizonte, na nossa utopia”, disse.

Durante o golpe militar no Uruguai, em 1973, Galeano foi preso. Para fugir da cadeia, exila-se na Argentina. No país vizinho, chegou a lançar o livro “Crisis”, mas não teve vida fácil. Em 1976, outro golpe militar, dessa vez liderado pelo general Jorge Videla, coloca novamente sua vida em risco.

O nome do escritor vai parar na lista dos esquadrões da morte, que executavam opositores ao regime. Para salvar sua vida, ele se refugia na Espanha. Ele só voltaria ao Uruguai em 1985, quando ocorre a redemocratização. Após o retorno, viveu em Montividéu até morrer.

Recebeu o prêmio Casa de Las Américas em 1975 e 1978, e o prêmio Aloa, promovido pelas casas editoras dinamarquesas, em 1993. A trilogia "Memória do fogo" foi premiada pelo Ministério da Cultura do Uruguai e recebeu o American Book Award (Washington University, EUA) em 1989.

Ainda em solo espanhol, Galeano iniciou “Memória do fogo”, uma trilogia sobre a História das Américas. Passando pelos povos pré-colombianos até o recuo das ditaduras militares na região, Galeano leva para as páginas personagens como generais, artistas e revolucionários. A história americana é contatada por meio de pequenos textos sobre ações que mudaram o modo de encarar a vida no continente.

Em 1999, Galeano foi o primeiro autor homenageado com o prêmio à Liberdade Cultural, da Lannan Foundation (Novo México). É autor de "De pernas pro ar", "Dias e noites de amor e de guerra", "Futebol ao sol e à sombra", "O livro dos abraços", "Memória do fogo" (que engloba "Os nascimentos", "As caras e as máscaras" e "O século do vento"), "Mulheres", "As palavras andantes", "Vagamundo", "As veias abertas da América Latina" e "Os filhos dos dias". 



sábado, 25 de abril de 2015

Estudo conclui que reservas de água podem diminuir até 40% em 15 anos


Olá alunos,

Um estudo da ONU concluiu que, dentro de 15 anos, as reservas de água do mundo todo podem diminuir até 40% apontando problemas enfrentados em relação aos recursos hídricos em nosso país. 
A postagem de hoje nos faz refletir sobre o consumo exagerado que temos feito de uma de nossas principais fontes vitais.

Esperamos que gostem da notícia e participem.

Joyce Borgatti e Palloma Borges.
Monitoras da disciplina "Economia Política e Direito" da Universidade Federal Fluminense. 

Falta d’água no Sudeste, água demais na Região Norte. O Brasil enfrenta os dois problemas. E às vésperas do Dia Mundial da Água, domingo (22), o relatório da Unesco, Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura, é preocupante.

Quase 750 milhões de pessoas no mundo não tem acesso à água potável. E se nada for feito, até 2030, o planeta vai sofrer com a falta d’água, um déficit de 40% no abastecimento. Ainda segundo o relatório, a água nunca foi tão consumida na indústria, na geração de energia, na agricultura.

Até 2050, apenas a agricultura, a área que mais consome água, deverá produzir 60% mais alimentos do que hoje. O estudo lembra, ainda, o grande volume de água necessário para gerar energia, e fala da necessidade de estímulos para fontes renováveis, como solar e eólica, a energia produzida a partir dos ventos.

O relatório cita o Brasil. Destaca o programa Rio Rural, no Rio de Janeiro, que estimula a agricultura familiar com a conservação dos recursos naturais. Mas o Brasil e o mundo, segundo a Unesco, precisam priorizar a gestão da água. Reduzir o desperdício e a poluição. E conciliar desenvolvimento econômico com a preservação dos recursos naturais.

“Nós temos no Brasil um sistema de administração hídrica já bem madura. É claro que as políticas têm que ser aperfeiçoadas. Enfim, ainda há muito o que fazer no mundo inteiro”, afirma Ary Mergulhão, coordenadora Ciências Naturais – Unesco.





sexta-feira, 27 de março de 2015

Mesmo que consumismo chegasse a Cuba, país não perderia identidade, diz assessor de Raúl



 
Olá alunos,

A aproximação entre Cuba e EUA vem gerando especulações sobre como a cultura consumista norte americana pode afetar o modo de vida e a identidade do povo cubano. A postagem de hoje apresenta uma entrevista com o Professor Abel Prieto Jiménez, assessor especial do Presidente Raúl Castro.
Esperamos que gostem e participem.

Fellype Fagundes e Carlos Araújo
Monitores da disciplina "Economia Política e Direito" da Universidade Federal Fluminense


Nascido em 1950 em Pinar del Río, na província ocidental de Cuba, Abel Prieto Jiménez é uma personalidade conhecida da cultura cubana. Depois de estudos em Letras Hispânicas na Universidade de Havana, ele foi professor de literatura por vários anos. Em 1988, foi eleito o chefe da União Nacional dos Escritores e Artistas de Cuba (UNEAC), se transformando em um dos presidentes mais jovens da história da instituição.

Durante uma reunião com Fidel Castro em meados dos anos 1990, Abel Prieto relatou ao 
líder da Revolução Cubana suas divergências e declarou seus pontos de vista. Alguns pensaram que a sua carreira seria irremediavelmente afetada. Semanas depois, Castro decidiu nomeá-lo ministro da Cultura, em 1997, cargo que ocuparia até 2012. Em março de 2012, Prieto deixou o Ministério da Cultura para ser assessor especial do presidente Raúl Castro.     

Para o ex-ministro, Cuba se beneficiaria de uma aproximação dos EUA e, por mais que turistas norte-americanos trouxessem a cultura do consumismo pra ilha, os cubanos não perderiam sua identidade. Ainda segundo Prieto, o país tem lutado muito, especialmente na área de cultura, contra a burocracia, que classificou como “praga” que causa “dano incalculável”.

Opera Mundi: O senhor foi ministro de Cultura durante quinze anos. Hoje, o senhor é assessor do presidente Raúl Castro na área da cultura. Qual é seu papel?

Abel Prieto: Minha tarefa consiste em promover a cultura cubana e garantir que as instituições culturais cubanas promovam os melhores talentos do nosso país. Meu trabalho consiste também em vincular a cultura e o povo, desenvolver as relações culturais internacionalmente e defender a política cultural da Revolução.

OM: A política estadunidense em relação a Cuba, particularmente as sanções econômicas, tem um impacto na cultura cubana. Qual seu ponto de vista a respeito?

AP: O impacto econômico é evidente. O presidente Barack Obama permite intercâmbios culturais, mas não comerciais. Muitos artistas, como Los Van Van, Carlos Varela, a Escola Nacional de Ballet e Silvio Rodriguez realizaram turnês pelos Estados Unidos, mas não puderem receber nem um centavo por suas atividades.

O maior mercado do mundo para as artes é o mercado estadunidense. Nossos artistas, escritores, intelectuais não têm acesso a ele. Nossas editoras, nossas galerias artísticas e nossas empresas culturais são proibidas de entrar nos Estados Unidos.

O povo norte-americano perde uma grande possibilidade de enriquecer com o contato com o nosso povo, por causa de uma política irracional, absurda e indefensível. Acontece o mesmo com o povo cubano, tão curioso intelectualmente, tão voraz de um ponto de vista cultural, que se vê privado de um intercâmbio fecundo com seu vizinho do Norte. Quando esses intercâmbios acontecem em Cuba, como durante a visita de uma artista estadunidense, os efeitos são impressionantes.

OM: Cuba está disposta a se aproximar dos Estados Unidos?

AP: Cuba se beneficiaria muito de uma aproximação dos Estados Unidos. É verdade que uma avalanche de turistas norte-americanos traria a cultura do consumismo, mas acredito que os aspectos positivos superariam amplamente os efeitos negativos. Muitos cidadãos norte-americanos têm muita curiosidade em descobrir “a ilha proibida”, já que é o único país do mundo que não têm direito de visitar. Lembro-me de um encontro com um importante cineasta, no cine Chaplin de Havana, no qual ele se assombrou ao ver a modernidade do lugar, a presença de um Festival de Cinema por ano etc. Isso demonstra até que ponto a imagem de Cuba na sociedade estadunidense não corresponde à realidade. O melhor antídoto contra isso é a mensagem cultural, que tocará com todo seu vigor e autenticidade o povo norte-americano e destruirá os estereótipos.

OM: Não há riscos nessa aproximação?

AP: Nossa identidade sofreria? Creio que temos uma vantagem. A identidade nacional cubana e a cultura nacional têm um núcleo de resistência muito forte e, ao mesmo tempo, se nutrem de investimentos exteriores. Somos descendentes de colonos espanhóis. Também somos o fruto dos escravos da África e a herança deste terrível genocídio. Somos também o resultado da imigração chinesa, polaca etc. Cuba é uma cultura mestiça capaz de absorver tudo sem atentar contra sua natureza profunda.

Então, não creio que perderíamos nossa identidade com uma chegada massiva de turistas norte-americanos. A cultura americana está muito presente em Cuba e nos chega por meio do cinema, da televisão, da música, e do meio milhão de cubano-americanos que nos visitam todos os anos. A cultura hegemônica associada à globalização está nos afetando e a resposta é de ordem educativa. Não vemos nossa realidade como o centro do mundo. Nossa vocação é universalista, como nos ensinaram José Martí e Fidel Castro. Creio que, em termos de valores, os norte-americanos somente poderiam enriquecer com um intercâmbio frutífero com os cubanos.

O que nos prejudica é a situação atual que é perversa, pois nos impede de adquirir medicamentos para as crianças doentes, com uma autoridade que nos persegue constantemente, que persegue os bancos que têm relações comerciais conosco. Tudo isso é de uma grande crueldade.

OM: Quais são os obstáculos para uma plena normalização das relações entre ambas as nações?

AP: Creio que é necessário voltar ao século XIX para entender a história do desacordo que opõe Cuba e Estados Unidos. John Quincy Adamns elaborou a história da “fruta madura”. Cuba deveria gravitar em torno da órbita estadunidense. Para os estrategistas do Norte, a ilha pertencia à sua zona de influência. José Martí o denunciou com vigor.

Em 1959, Cuba conseguiu sua independência e se tornou uma grande potência moral que mostra para o mundo que é possível enfrentar o imperialismo. Cuba é um exemplo de soberania para a América Latina e para o mundo. Cuba deu prova de uma grande tenacidade na defesa de seus princípios. Penso que é o que os Estados Unidos não perdoam. Davi pôde resistir a Golias. Ainda que mudássemos de modelo e adotássemos o capitalismo selvagem que está destruindo a humanidade, não perderíamos essa afronta. Os Estados Unidos somente aceitam a subordinação. Não perderam a esperança de fazer de Cuba uma colônia. Veja que os pretextos para manter a hostilidade contra Cuba mudam de acordo com as épocas.

Em geral, os Estados Unidos dão prova de pragmatismo em sua política exterior e é uma característica de sua idiossincrasia. Mas, no caso de Cuba, essa tradição clássica desaparece em favor de uma atitude irracional. Os Estados Unidos sabem se mostrar grandes em alguns aspectos. Em troca, em relação à sua política contra Cuba, se mostram muito pequenos. Sua atitude é realmente pouco honrada, já que não se obtém nenhuma glória em sitiar um povo que jamais agrediu os Estados Unidos.

OM: Há quem diga que as autoridades cubanas usam as sanções econômicas como desculpa para explicar o fracasso do sistema.

AP: Por que, então, não nos tiram essa desculpa? Não seria mais didático fazer isso? Por que não tiramos esse pretexto para mostrar ao mundo que nosso modelo de sociedade é ineficiente? Isso não quer dizer que não tenhamos cometido erros. Essa Revolução foi edificada por homens e mulheres e não é obra divina. É imperfeita por definição.

OM: Qual será o benefício para os Estados Unidos em caso de mudança de política?

AP: Nosso presidente Raúl Castro afirmou várias vezes que estamos dispostos a dialogar de igual para igual, sobre todos os temas possíveis e imagináveis, sem atentar contra nossos princípios, nossa dignidade e nossos direitos. Aceitaremos sempre o diálogo respeitoso entre dois países soberanos.

De um ponto de vista econômico, a indústria turística estadunidense seria a principal beneficiária de uma normalização das relações entre nossos dois países. Em termos de imagem, isso teria um impacto muito positivo para os Estados Unidos, que sairiam de seu isolamento. [Seria um benefício] para os cidadãos dos Estados Unidos, [que] recuperariam seu direito de viajar para Cuba, de comercializar com a ilha. De uma perspectiva moral, todas as pessoas dignas que vivem nos Estados Unidos, e são muitas, se orgulhariam de uma mudança de política em relação a Cuba.

OM: Quais são os desafios para a Cuba de hoje?

AP: Estamos lutando uma grande batalha contra a burocracia, que é uma praga para nosso país e que nos causou um dano incalculável. Isso concerne à área da cultura. Vejo todos os dias como essa burocracia, devoradora de energias e recursos, desperdiça os fundos, sem nenhuma relação com os processos culturais. Devemos construir um socialismo mais eficiente, mais fluído, menos sectário, mais audaz, mais revolucionário.

Abrimos nossa economia para a empresa privada. No setor cultural já existia o trabalho por conta própria dos artistas plásticos, que geram patrimônio com suas obras – e reforçam o tecido espiritual de nossa nação. Temos muitos artistas que não são empregados do Estado e não se transformaram em conservadores ou reacionários. Existe certo marxismo vulgar, que chegou com os manuais soviéticos, que associa o trabalho privado ao reacionário e que o cataloga como inimigo do povo. Na realidade, acontece o contrário, já que o pequeno negócio e a cooperativa reforçam o socialismo. Da mesma forma, nosso Partido Comunista deve se abrir mais para a diversidade, a análise crítica, à discrepância e ao debate. Deve ser menos dogmático. Nosso caminho é autenticamente cubano e envolve toda a população. Mas não pretendemos ser um modelo.

OM: O que Fidel Castro representa para o senhor?

AP: Eu tinha oito anos quando a Revolução triunfou. Meu pai foi membro do Movimento 26 de Julho, discípulo de José Marti e grande admirador de Fidel Castro. Lembro-me dos longos discursos de Fidel Castro pela televisão. Não entendia muito, já que era muito jovem, mas era uma pessoas que cativava. Lembro-me de Fidel, durante a crise dos mísseis e da valentia das pessoas. Corríamos o risco de ser varridos da face da terra, mas não havia pânico entre a população.

Quando estava na universidade, o vi várias vezes. Conheci Fidel pessoalmente na Casa de las Américas, nos anos 1970. Havia um curso sobre jovens escritores e o Roberto Fernández Retamar o apresentou para mim. Lembro que Fidel brincou com Gabriel García Márquez, que estava com ele e lhe perguntou: “Você acredita que um deles será Prêmio Nobel algum dia?”
Quando integrei a União de Escritores e Artistas de Cuba como presidente, tive o privilégio excepcional, durante um congresso, de me encontrar com Fidel. Lembro que um amigo tinha me dito que Fidel nunca se interessava superficialmente pelas coisas, e que fazia muitas perguntas. Então, me preparei e reuni muitos dados sobre os membros da UNEAC, por províncias, o número de mulheres, a faixa de gerações etc. Decorei tudo. No dia seguinte, cheguei para a reunião com os nervos à flor da pele. Lembro-me da primeira pergunta, uma vez que não sabia a resposta: “Quando metros quadrados tem o pátio da sede da UNEAC?”. Meu secretário me deu uma cifra, evidentemente falsa, e Fidel começou a rir. Creio que tenho o recorde nacional de equívocos com Fidel, já que sempre dou dados errados para ele.

Tem sido um grande privilégio porque encontrei um homem que tinha uma grande visão estratégica com uma paixão pelo detalhe. É capaz de sintetizar o futuro da humanidade e, ao mesmo tempo, avaliar com grande precisão cada detalhe.

OM: Qual é a importância de Fidel Castro para a cultura cubana?

AP: Fidel é um intelectual brilhante, um grande leitor. Retamar me disse um dia que Fidel não lia José Martí, mas o respirava. Há uma grande articulação entre Martí e Fidel, ainda que sejam de épocas diferentes.

Lembro que, em 1994, em pleno Período Especial, com uma crise econômica gravíssima, Fidel se reuniu conosco na UNEAC e disse: “O primeiro que temos de salvar é a cultura”. Tinha seis horas de eletricidade por dia. Foi um momento muito amargo, uma época muito difícil de um ponto de vista material. Mas a prioridade era a cultura.

Fidel traçou uma política cultural muito diferente do “realismo socialista” da Europa do Leste, muito aberta, muito unitária, com uma implicação constante dos artistas de todas as gerações e de todas as tendências. Essa política cultural nos salvou, já que nossos inimigos nunca puderam contar com uma quinta coluna na intelectualidade cubana. Jamais houve uma oposição intelectual em Cuba paga pelos Estados Unidos. O pensamento de Fidel nos permitiu conceber uma política de cultura distanciada dos dogmas, das exclusões, uma política cultural de vanguarda. Fidel sempre se aliou a uma vanguarda intelectual de nosso país, a vanguarda artística de nossa nação. Também fez com que essa vanguarda trabalhasse a favor da inclusão do povo na cultura. Não se tratava de uma aliança elitista, mas de uma aliança integradora. Para Fidel, a cultura é essencial para transformar as pessoas, para a emancipação humana. Fidel dizia muito o seguinte: “Sem cultura, não existe liberdade possível.”