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quinta-feira, 26 de março de 2015

As 10 cidades com maior crescimento econômico em 2014



Olá alunos,

O resultado de um estudo envolvendo mais de 300 cidades feito pelo centro de pesquisa americano Brookings Institution mostra as dez metrópoles que mais cresceram em 2014. A base de comparação para o estudo foi o crescimento econômico e não a riqueza. Para medi-lo, combinou-se o aumento do Produto Interno Bruto (PIB) per capita e o crescimento do emprego.

Esperamos que gostem e participem.

Fellype Fagundes e Carlos Araújo
Monitores da disciplina "Economia Política e Direito" da Universidade Federal Fluminense
Macau, Izmir, Bursa ou Xiamen não são as cidades mais conhecidas do planeta, mas estão entre as dez que mais cresceram em 2014.
O resultado de um estudo envolvendo mais de 300 cidades feito pelo centro de pesquisa americano Brookings Institution mostra que cinco delas estão na China e quatro na Turquia. Dubai, nos Emirados Árabes, completa a lista.
No Brasil, o Rio de Janeiro foi cidade melhor posicionada na lista, em 162º. São Paulo ficou em 284º lugar, e Campinas teve o pior desempenho de todas as metrópoles do país, em 291º.
Tóquio, Nova York, Paris e Londres, cidades entre as mais ricas do mundo, também não estiveram entre os melhores desempenhos. Joseph Padilla, coautor do estudo, não se surpreende.
"A base de comparação foi o crescimento econômico e não a riqueza. Para medi-lo, combinamos o aumento do Produto Interno Bruto (PIB) per capita, porque dá uma ideia da renda média da população, e o crescimento do emprego, por seu impacto econômico. Em ambas as medidas, estas cidades superam as de países desenvolvidos", diz Padilla.
Em âmbito global, as 300 grandes cidades comparadas pelo Brookings Institution concentram 20% da população mundial, mas representam 50% da produção econômica.
Confira a lista completa e conheça um pouco mais sobre as cidades e os motivos por trás de sua plena expansão.

1 – Macau

A antiga colônia portuguesa retomada pela China no fim do século 20 teve um crescimento de PIB per capita de 8% e aumento de emprego de 4%.
Ela repete um padrão comum entre as outras cidades da lista: cresce embalada pela economia do país.
No caso de Macau, sua pequena população, de pouco mais de 500 mil pessoas, a ajudou obter este lugar de destaque no ranking. Mas a principal razão disso está num privilégio nacional: é o único lugar da China em que cassinos são legalizados.
"Macau encabeçou o índice em 2012, quando já havia se convertido no centro de jogos de azar da China", afirma Padilla.
"Isso atraiu investimentos de multinacionais, contribuindo de forma decisiva para este fenomenal crescimento."

2 - Izmir

Situada na costa oeste da Turquia, Izmir é a terceira maior cidade do país, com mais de 4 milhões de habitantes, e foi a cidade com o maior crescimento na taxa de emprego de todo o estudo: 6,6%.
Padilla destaca que Izmir tem sido um importante centro comercial desde o século 17, com acessos aos mares Mediterrâneo e Egeu.
"O governo tem usado esta localização para promover zonas industriais. Por isso, ela não foi apenas a cidade em que mais o emprego cresceu em 2014. No período entre 2009 e o ano passado, ficou na segunda posição", explica Padilla.
"Isso mostra uma clara solidez e continuidade econômica."

3 – Istambul

A antiga Constantinopla é a maior cidade da Turquia, com mais de 14 milhões de habitantes, e é responsável por um quarto da economia turca.
"Localizada em um centro histórico e comercial que conecta a Ásia central com a Europa, é a segunda cidade em termos de criação de emprego", diz Padilla.
"Tem uma economia diversificada e muito importante nos setor de serviços, turismo, comércio e de manufatura."
Neste sentido, é um claro exemplo de uma dimensão-chave do estudo do Brookings Institute: o poder de atração das grandes metrópoles sobre o conjunto da economia nacional.

4 – Bursa

Situada no noroeste da Turquia, é a quarta maior cidade do país, com quase 4 milhões de habitantes, e deve seu lugar no ranking graças à sua indústria automotiva.
"É conhecida internacionalmente como um importante centro de produção automotivo, batizado como a Detroit da Turquia", destaca Padilla, em referência à cidade americana conhecida por ter reunido um grande número de montadoras.
Em Bursa, há uma forte presença de multinacionais, como Renault e Fia,t e de uma ampla gama de fornecedores de peças para veículos.
"Tudo isso tem contribuído para sua alta taxa de criação de empregos, de cerca de 6,4%", explica Padilla.

5 – Dubai

Um dos sete emirados que compõem os Emirados Árabes, Dubai era um pequeno povoado pesqueiro há poucas décadas.
Com mais de 3 milhões de pessoas, hoje é a cidade com a maior população do país, com um crescimento do PIB per capita de 4,7% e de emprego de 4,5%.
"Dubai se converteu em um centro global de transporte, comércio, turismo e serviços profissionais", afirma Padilla.
"Graças a um esforço de diversificação, Dubai não depende mais de produtos primários para seu crescimento econômico. Hoje, os serviços representam cerca de 70% do seu PIB."

6 – Kunming

Capital da província de Yunnan, no sul da China, tem mais de 4 milhões de habitantes e um clima temperado que lhe rendeu o apelido de "Chuncheng", ou cidade da primavera.
Kunming é um centro de turismo no sudeste asiático e superou Macau em crescimento do PIB per capital, com 8,1%, ainda que tenha ficado abaixo no aumento do emprego, com 2,9%.
"Kunming é ainda um centro de transporte na região e a sede das mais importantes universidades", diz Padilla.
"Hoje, é a cidade continental chinesa com o melhor desempenho econômico."

7 – Hangzhou

Com uma população de 9 milhões de pessoas, a capital da província de Zhejiang, ao sul de Xangai, teve um crescimento do PIB per capita de 7% e do emprego de 3,3% - este último o maior entre as cidades da China continental.
"Hangzhou passou por um grande crescimento do setor empresarial, financeiro e profissional. Além disso, é um importante centro do comércio eletrônico, e o que exemplifica muito bem isso é o fato de ser a sede global da Alibaba", destaca Padilla.

8 – Xiamen

Esta cidade na costa leste da China tem uma população de mais de 3 milhões de pessoas.
Num ranking elaborado pelo governo chinês, foi considerada a melhor cidade de 2006 e a mais romântica de 2011.
Em 2014, teve um crescimento do PIB per capita de 8,6%, o maior entre as dez cidades da lista.
Deve isso a uma economia diversificada, baseada na pesca, estaleiros, alimentos, produtos têxteis, serviços financeiros e outros setores mais.
Outros dois elementos-chave a colocam nesta posição no ranking: sua relação com Taiwan, que está a 300km de distância, e sua classificação como zona especial econômica, o que lhe confere uma maior abertura ao capital estrangeiro, redução de impostos e legislação mais flexível, com uma forte produção industrial voltada para a exportação.
"Xiamen é um dos grandes centros de manufatura da China e, neste século, tem ficado sistematicamente entre as cidades que mais cresceram nacionalmente", afirma Padilla.
"Em 1980, foi uma das primeiras cinco zonas econômicas especiais. E hoje se encontra entre os 20 maiores portos do mundo."

9 - Ankara

Com quase 5 milhões de habitantes, a capital turca é sede do Parlamento, dos ministérios e da diplomacia do país.
Também é um importante centro industrial e comercial que se encontra estrategicamente localizada na rede de transporte nacional.
"As cidades turcas estão crescendo muito graças a fortes investimentos em infraestrutura e no setor de construção", explica Padilla.
"Mesmo que em Ankara o governo siga representando a maior parte da economia, o setor de manufatura teve um importante papel no crescimento do emprego e da indústria. Muitas das companhias de defesa e aeroespaciais tem sua sede na capital."

10 – Fuzhou

A capital da província de Fujian é a cidade mais industrializada desta região do país.
Localizada a penas 249km de Taiwan, Fuzhou se beneficiou da retomada de relações da ilha com a China.
Com uma população de quase 7 milhões, teve um crescimento do PIB per capita de 8%, igual ao de Macau, mas um menor aumento do emprego.
"É um centro especializado em produtos químicos, alimentícios e têxteis, mas os setores que mais cresceram em 2014 foram o empresarial, financeiro e profissional", diz Padilla.
"A isto se soma o fato da China ter acabado de anunciar uma zona de livre comércio expandida em Fuzhou, o que vai contribuir para este crescimento."

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

'Brasil precisa taxar ricos para investir no ensino público', diz Piketty


Olá alunos,

Piketty é autor do polêmico best-seller O Capital no Século XXI  em que defende, a partir da análise de dados inéditos de 20 países, que a desigualdade de renda estaria voltando a aumentar no mundo após décadas em queda. A postagem de hoje expõe uma entrevista com Piketty em que o mesmo analisa o cenário econômico brasileiro.

Esperamos que gostem e participem.

Fellype Fagundes e Carlos Araújo
Monitores da disciplina "Economia Política e Direito" da Universidade Federal Fluminense
 


Para o economista francês Thomas Piketty, o Brasil precisa ampliar os impostos sobre os ricos para ter mais recursos para investir em educação pública – e, com isso, avançar no combate à desigualdade.

Crítico-sensação do capitalismo, Piketty é autor do polêmico best-seller O Capital no Século XXI (Editora Intrínseca) em que defende, a partir da análise de dados inéditos de 20 países, que a desigualdade de renda estaria voltando a aumentar no mundo após décadas em queda.

Ele diz que o próximo passo de seu projeto é estudar países emergentes, entre eles o Brasil, e defende que a desigualdade é um dos fatores que inibe o crescimento brasileiro.

"Se o Brasil quiser crescer no século 21 precisa garantir que amplos grupos da população tenham acesso a educação de qualidade, qualificação e trabalhos que pagam bem", diz.

Em visita ao país, para promover a versão em português do livro, Piketty concedeu a seguinte entrevista à BBC Brasil de um hotel de luxo no centro de São Paulo.

BBC Brasil: Como o Brasil pode reduzir seus níveis de desigualdade?

Piketty: Há uma série de políticas que contribuem para isso. Investir em educação e em instituições sociais, (implementar) um sistema de impostos progressivo, em que os ricos pagam mais que os pobres, (criar) boas políticas para o mercado de trabalho e aumentar o salário mínimo – algo que no Brasil foi importante nos últimos 10, 15 anos. Todas essas políticas são complementares. Não dá para escolher.

Se você só aumenta o salário mínimo, mas não aumenta a qualificação do trabalhador e sua produtividade terá problemas para sustentar isso com o tempo. O investimento em educação – e em especial na educação pública - é absolutamente essencial para se reduzir a desigualdade. E a taxação progressiva de rendas altas e grandes heranças pode ser uma forma de obter recursos para investir no sistema de educação pública.

É claro que é mais fácil taxar os pobres que os ricos. Talvez por isso em muitos países você tenha esse monte de impostos indiretos – como é o caso do Brasil. Mas provavelmente, a falta de progressividade no sistema de impostos é uma das razões pelas quais a desigualdade é tão grande no Brasil.

BBC Brasil: Como assim?

Piketty: A alíquota máxima do imposto de renda – algo em torno de 27%, 30% - é pequena para padrões internacionais. E é aplicada a partir de salários muito baixos. Seria possível ter impostos mais altos para quem ganha R$500 mil, R$1 milhão, R$5 milhões e por aí vai.

Os impostos sobre herança também são particularmente baixos para padrões internacionais e históricos. Se não me engano, aqui é de 4%. Nos EUA, por exemplo, esse imposto pode chegar a 40% para as maiores heranças. Na Alemanha, Grã-Bretanha e França também.

BBC Brasil: Mas a França aumentou a taxação sobre os ricos e há notícias de que alguns milionários teriam mudado de país. Esse risco não existe?

Piketty: Você não vê notícias de que esses países que têm imposto sobre herança de 40% tenham de reduzir suas taxas para o patamar brasileiro, de 4%, para reter milionários. Acho que é perfeitamente possível para o Brasil ter níveis mais altos (de imposto sobre os ricos) sem ter uma fuga massiva de capitais.

No caso da França, eu acho que de fato houve um aumento excessivo dos impostos nos últimos anos. Não tanto para os ricos, mas para a população no geral. O objetivo era reduzir o déficit público mas (a estratégia) foi um desastre. No fim, matou (as perspectivas de) o crescimento, o que dificultou a redução do déficit.

BBC Brasil: Enquanto a Europa acaba de anunciar um pacote de estímulos para reativar a economia de alguns países, no Brasil o governo anunciou o fim dos incentivos e cortes de gastos. Quem vai na direção certa? E quais os riscos a serem evitados no caso brasileiro?

Piketty: Não acredito que o governo brasileiro vá reduzir tanto os gastos totais do governo, nem que essa seria uma boa decisão. Talvez seja bom reformar os gastos e o sistema de impostos - e torná-los mais transparentes. Também fortalecer gastos sociais e reduzir outros gastos que não são tão eficientes. Mas não estou certo de que seria uma decisão inteligente reduzir de forma mais significativa o nível geral de gastos do governo com esse nível de crescimento. Se você tem uma recessão ou quase estagnação, austeridade não é uma boa forma de lidar com isso. E tanto no Brasil como na Europa a prioridade agora é voltar a crescer.

BBC Brasil: Se o Brasil já está conseguindo reduzir a pobreza, por que precisa se importar também com a desigualdade?

Piketty: Porque poderia ter uma redução ainda maior da pobreza e um crescimento maior da economia se tivesse menos desigualdade. É tudo uma questão de grau. Concordo que precisamos de um pouco de desigualdade para continuar crescendo. O problema é quando a desigualdade atinge níveis extremos, muito altos. Aí deixa de ser útil para o crescimento. Passa a se perpetuar por gerações, afeta a questão da mobilidade social. Os níveis de desigualdade no Brasil estão entre os maiores do mundo. Se o Brasil quiser crescer no século 21 precisa garantir que amplos grupos da população tenham acesso à educação de qualidade, qualificação e trabalhos que pagam bem. Para isso é necessário muito investimento social inclusivo.

BBC Brasil: Que tipo de programas sociais são efetivos? No Brasil, apesar de diversos grupos políticos abraçarem o Bolsa Família, por exemplo, o programa ainda causa polêmica. Os críticos dizem que é assistencialista ou populista …

Piketty: A aceitação das transferências para os pobres é um problema em vários países. No Brasil, como em outros países, precisamos abordar a questão das políticas sociais de forma equilibrada. O Bolsa Família e a transferência de recursos para os pobres são importantes. Mas mais investimentos em educação, também. Na realidade, o aumento do salário mínimo tem sido até mais eficiente em reduzir a pobreza que o Bolsa Família. A taxação progressiva também é crucial. Como disse, precisamos de todas essas políticas.

BBC Brasil: Não é possível reduzir a desigualdade com um Estado menos inflado?

Piketty: Acho que precisamos de um Estado eficiente para investir em educação e serviços públicos. Não há exemplos no mundo de um país que tenha se desenvolvido com um nível de imposto de 10% ou 20% do PIB. Também sou cético sobre aqueles que dizem que a filantropia privada vai substituir o governo no futuro e que não precisamos de imposto, que só é preciso deixar que os bilionários doem parte de seus recursos para fundações e instituições elegidas por eles.

O Bill Gates (fundador da Microsoft), me disse certa vez que leu meu livro e concordava com tudo - mas que não queria pagar mais imposto. Ele disse que aceitaria um imposto progressivo sobre o consumo de até 90%, mas que não queria pagar sobre o dinheiro que vai para sua fundação. O problema é que se você doa dinheiro para uma fundação da qual você é presidente, sua mulher é copresidente e seus parentes são membros do conselho, trata-se de uma doação desinteressada ou só uma maneira de continuar a ter controle sobre esses recursos?

Às vezes, as pessoas que têm dinheiro fazem boas doações com ele. Outras vezes apenas tentam obter mais influência. Nos EUA, muitos milionários financiam organizações políticas.

Por isso, acho que a filantropia privada é útil, algo que complementa a ação do governo, mas não a substitui.

BBC Brasil: Aqui o problema é que as pessoas pagam impostos, mas não veem o retorno. Todos concordam que o governo deve ser mais eficiente, mas por onde começar?

Piketty: Esse problema não é exclusivo do Brasil. Entendo que esse processo de construção de confiança (no governo) é gradual. E uma maneira de começar é ampliando a transparência sobre a arrecadação e os gastos do governo. É preciso saber quem exatamente está pagando, por faixa de renda, e para onde vão os recursos.

BBC Brasil: A expectativa é que o PIB brasileiro cresça menos de 1% este ano. Como isso pode afetar o combate a pobreza?

Piketty: É muito mais difícil reduzir a pobreza e a desigualdade sem um crescimento econômico vigoroso. O crescimento da economia é algo muito importante, principalmente para países como o Brasil, em que a renda per capita ainda é relativamente baixa. O crescimento deveria ser 3, 4 ou 5%. É esse o crescimento potencial do país. O que temos agora não é satisfatório, por isso entendo a preocupação. Política monetária é importante, o equilíbrio do orçamento também, mas não podemos esquecer que o Brasil precisa crescer mais nos próximos anos para continuar avançando.

BBC Brasil: Quais são seus próximos projetos? 

Piketty: Estender meu trabalho a países emergentes, como o Brasil e a China. Também estamos fazendo estudos e coletando dados na África. Queremos ver como a distribuição de renda e riqueza tem mudado nesses países. Graças à publicação do livro, agora é mais fácil acessar os dados de alguns países. No Brasil, parece que vamos conseguir ter acesso às estatísticas de imposto de renda que vínhamos pedindo a autoridades brasileiras há muito tempo. Alguns dados recentes já foram liberados – e o que você pode ver é que a desigualdade é ainda maior do que indicam as estatísticas oficiais (da pesquisa Pnad, do IBGE).

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sábado, 27 de dezembro de 2014

O que aconteceu com os Brics?



Olá alunos,

Os Brics foram considerados os países que poderiam remodelar a economia mundial, porém, o grupo também vem sentido os efeitos da crise de 2008. A postagem de hoje busca analisar o cenário político-econômico de cada um desses países.

Esperamos que gostem e participem.

Fellype Fagundes e Carlos Araújo
Monitores da disciplina "Economia Política e Direito" da Universidade Federal Fluminense


Em 2001, os Brics foram considerados países que poderiam remodelar a economia mundial. 
Brasil, Rússia, Índia e China -na época o grupo não incluía a África do Sul- foram identificados como economias grandes e de crescimento rápido que teriam papeis globais cada vez mais influentes no futuro.
Mas a desaceleração econômica pela qual o Brasil está passando se repete em todo o grupo. O que aconteceu com estas economias?

Hoje, China e Rússia são possivelmente as mais preocupantes para o resto do mundo no curto prazo. Podem provocar uma reformulação séria e bastante indesejável.

No caso da China, há o risco de a desaceleração econômica se transformar em algo mais prejudicial para a economia mundial. Com a Rússia, há a possível consequência econômica do conflito na Ucrânia.

A desaceleração da China aconteceria mais cedo ou mais tarde. Na verdade, é notável que não tenha vindo antes.

A China tem registrado taxas extraordinárias de crescimento econômico há muito tempo - uma média de 10% ao ano nas últimas três décadas.

Mas este crescimento é baseado em taxas muito elevadas de investimento, atualmente em 48% da renda nacional ou PIB.

Quando o investimento é alto assim, há sempre o risco de que muitos projetos acabem sendo um desperdício ou não rentáveis, minando as finanças dos próprios investidores e de qualquer pessoa que tenha emprestado dinheiro a eles.

Poucos países têm taxas de investimento mais altas do que as chinesas -e nenhum deles têm muito a ensinar para a China. São eles Butão, Guiné Equatorial, Mongólia e Moçambique.

Outro fator que ajuda a entender o crescimento chinês é a exportação.

Mas não é possível depender disso atualmente, quando o resto do mundo ainda luta para se recuperar da crise financeira.

Transição chinesa

O que o governo chinês quer fazer é avançar no sentido de um crescimento econômico um pouco mais lento e mais influenciado por venda de bens e serviços para os consumidores chineses.

A desaceleração está acontecendo. Já nesta década, a taxa média de crescimento caiu em mais de dois pontos percentuais.

O homem que inventou o termo "Brics", Jim O'Neill, então da Goldman Sachs, acredita que a transição pode ser gerida sem muita turbulência.

Outros são mais cautelosos.

O professor Kenneth Rogoff, da Universidade de Harvard, diz que a desaceleração da China é ao mesmo tempo inevitável e desejável, mas adverte: "Não é fácil conter o crescimento gradualmente sem provocar problemas generalizados de projetos de investimentos ambiciosos."

Ele diz que, se o crescimento chinês entrar em colapso, a queda global poderia ser muito pior que a causada por uma recessão normal nos EUA.

Já a Rússia é uma história diferente.

Seu impacto econômico potencial sobre o resto do mundo em um futuro próximo está altamente relacionado com questões políticas.

O conflito na Ucrânia já prejudicou a Rússia economicamente.

As sanções impostas pelo Ocidente e o receio entre os investidores de que elas possam aumentar agravaram uma desaceleração que ocorreria de qualquer maneira.

O país já perdeu US$ 85 bilhões este ano, de acordo com dados do Banco Central.

A Rússia é muitas vezes criticada por ter um ambiente de negócios difícil, devido à burocracia e incertezas sobre o sistema legal.

O FMI já falou disso antes, e Jim O'Neill também afirma que a Rússia precisa de normas confiáveis de direito empresarial.

Os problemas da Rússia já tiveram impacto econômico além de suas fronteiras, notadamente na Alemanha.
As exportações para a Rússia caíram acentuadamente - o que é um fator importante por entender por que a Alemanha está perto da recessão.

Olhando para o futuro, o FMI também advertiu que "riscos geopolíticos", ou seja, a crise na Ucrânia e no Oriente Médio, são algumas das principais ameaças para a recuperação da economia global que já é, nas palavras do próprio FMI, "fraca e desigual".

Força da Índia

Outros dos Brics com problemas claros é o Brasil - apesar de o país representar menos perigo no contexto global.

Assim como a Rússia, é uma economia em que as exportações de commodities desempenharam um papel importante para os bons resultados da década de 2000.

Na Rússia, o que se exportava era de petróleo e gás. Já o Brasil tem minério de ferro e commodities agrícolas como soja, café e açúcar.

Jim O'Neill diz que ambos precisam tomar medidas para tornarem-se menos dependentes do setor de commodities.

Devem melhorar a sua competitividade de trabalho, diz, e se tornarem mais atraentes para o investimento privado em outras indústrias.

Entre os países do Bric original - que não inclui a África do Sul -, a Índia aparentemente é o que está causando menos ansiedade nos mercados financeiros e instituições econômicas internacionais no momento.
O crescimento ganhou força este ano, embora esteja muito aquém daquele da década anterior.

Muitos investidores receberam bem o novo governo de Narendra Modi, que assumiu o cargo em maio.
"Estou mais otimista do estive por algum tempo sobre a Índia", diz Jim O'Neill.

Então, os Brics estão desmoronando?

É bom lembrar de onde este conceito veio. Ele apareceu pela primeira vez em um artigo escrito em 2001 por Jim O'Neill.

Não era um grupo, mas apenas uma maneira conveniente, com uma sigla agradável, para detectar tendências importantes.

Somente anos depois os países começaram a fazer cúpulas anuais e, nesta fase inicial, o grupo não incluia a África do Sul. O "s" no final de Brics aparecia apenas como um plural.

Alcançando o crescimento

O objetivo do trabalho era mostrar o papel cada vez mais influente que esses países desempenhariam na economia global pelos próximos 10 anos, e argumentar que a cooperação econômica internacional deveria mudar para refletir esta realidade diferente. E isso ocorreu.

Desde 2008, um dos fóruns-chave para questões de política econômica tem sido o grupo G20, que inclui todos os Brics entre os seus membros.

Os Brics eram as maiores economias emergentes. Não havia nenhum país africano quando a ideia foi usada pela primeira vez, e em termos do seu peso econômico a África do Sul estava bem atrás dos outros, e também de alguns que não foram incluídos, como a Indonésia e o México.

Um artigo de acompanhamento de dois outros economistas do Goldman Sachs estendeu a análise até 2050 e sugeriu que os Brics, em conjunto, poderiam ser maiores que os seis principais países industrializados somados em 2039.

A rigor, os artigos do Goldman Sachs não eram previsões. Eram retratos de como o mundo poderia ser se os países crescessem o quanto podem.

As taxas de crescimento previstas eram muito maiores do que a de países ricos.

Eles têm a possibilidade de alcançar esses países ao investir rapidamente em tecnologia, o que já está estabelecido em economias desenvolvidas.

Eles também têm mão de obras disponível, para as indústrias em rápida expansão, por causa da população em crescimento e urbanização, com as pessoas se mudando do campo para as cidades.

Nas projeções originais de Jim O'Neill, o crescimento chinês ao longo dos próximos 10 anos foi fixado em 7%, da Índia de 5%, e Rússia e Brasil, em 4%.

O Brasil foi o único que não atingiu essa projeção.

Mas todos os Brics têm desacelerado na década atual, por mais de dois pontos percentuais cada, com exceção da África do Sul.

Potencial para o futuro

O FMI investigou a desaceleração dos países em desenvolvimento.

Uma parte significativa dele reflete a demanda internacional mais fraca por suas exportações e políticas governamentais dos próprios países, que se tornaram uma limitação ao crescimento, à medida que reverteram políticas de estímulo anteriores -cortando gastos ou aumento impostos para reduzir as necessidades de financiamento.

Mas também há outros fatores que afetam a capacidade das economias emergentes de crescer no futuro - que limitam o que o FMI chama de "potencial de crescimento".

As taxas de juros tendem a subir gradualmente de seus atualmente baixos níveis nos países ricos - particularmente nos EUA e no Reino Unido.

Isso vai afetar as taxas globais e tornar o investimento mais caro em economias emergentes.

Muitos também terão de lidar com o envelhecimento da população e um crescimento mais lento do número de pessoas em idade ativa.

Para alguns, a vantagem demográfica que tinham anteriormente está desaparecendo.

Rússia e China estão entre nesse grupo. Isso foi levado em conta nas projeções do Goldman Sachs. Jim O'Neill diz que, mais recentemente, suas políticas nesta área têm sido "surpreendentemente boas".

A China está afrouxando sua política de filho único e, diz ele, "a Rússia tem tido algum sucesso no aumento da expectativa de vida com políticas muito mais inteligentes sobre o consumo de álcool."

Apesar de todos os Brics terem desacelerado nesta década, os que apresentam perfomance mais fracos agora são Brasil e Rússia.

Suas taxas médias de crescimento têm sido inferiores a dos Brics asiáticos o tempo todo e, neste ano, eles desaceleraram ainda mais. Para 2014 como um todo, o FMI projetou crescimento para os dois, mas muito pouco - de 0,3% para o Brasil e 0,2% para a Rússia.

Os dois números, aliás, são um bem menores do que foi previsto este ano até para a zona do euro - apesar de ela ainda estar em crise e ter sido descrita como assombrada pelo "fantasma da estagnação" por Mark Carney, do Banco da Inglaterra.

Jim O'Neill ainda não achar que é o caso de tirar Brasil e Rússia do Brics - mas os últimos anos têm certamente sido uma decepção.

Portanto, não é hora de abandonar os Brics.

Os países do grupo estão passando por alguns problemas, certamente. Para mudar o quadro, a China, em particular, está embarcando em uma operação audaciosa, enquanto busca uma forma diferente e, talvez, em última análise, mais sustentável de desenvolvimento econômico.

Os Brics e seu desempenho importam para o resto do mundo, mais do que importavam na virada do século - o que é, afinal, o ponto principal do conceito original.

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sábado, 6 de dezembro de 2014

Desindustrialização e capitalismo




Olá alunos,

O setor industrial teve um declínio  em termos de participação na produção e no emprego das economias capitalistas maduras durante o século vinte. A postagem de hoje analisa se essa queda teve efeitos sobre qualidade de vida da população e suas relações sociais.

Esperamos que gostem e participem.

Fellype Fagundes e Carlos Araújo
Monitores da disciplina "Economia Política e Direito" da Universidade Federal Fluminense

Semana passada discursei em um painel que debatia a des­industrialização e o socialismo. O painel foi organizado pelo Spring, um grupo com sede em Manchester na Inglaterra e que se tornou um fórum para a discussão dos desenvolvimentos do capitalismo e suas implicações nas perspectivas do socialismo.

O tema principal da discussão foi o fato evidente de que o setor industrial (indústrias, energia, mineração, etc) teve um declínio nítido como parte da produção e do emprego nas economias capitalistas maduras durante o século vinte. A questão em debate era: isso significa que a classe trabalhadora também entrou em declínio e não é mais a força principal da mudança no capitalismo; e também, que uma sociedade socialista ou pós-capitalista será um mundo sem indústria ou emprego dos trabalhadores industriais?

O primeiro ponto que notei na discussão foi que o mundo não esta se desindustrializando. Globalmente, havia 2,2 bilhões de pessoas trabalhando e produzindo valor em 1991. Agora são 3,2 bilhões. A força produtiva global aumentou em 1 bilhão nos últimos 20 anos. Mas não houve des­industrialização globalmente. A desinsdustrialização é um fenômeno das economias capitalistas maduras. Não se dá nas economias capitalistas 'emergentes'. 

Usando as figuras fornecidas pela Organização Internacional do Trabalho (OIT), podemos ver o que está acontecendo globalmente, com a ressalva de que há um menosprezo sério dos trabalhadores industriais nessas figuras e muitos trabalhadores hi­tech, de transporte e comunicação são colocados no setor de serviços.

Globalmente, a força produtiva industrial cresceu em 46% desde 1991, de 490 milhões para 715 milhões em 2012 e irá alcançar bem mais de 800 milhões antes do final da década. De fato, a força produtiva industrial cresceu em 1.8% desde 1991, e desde 2004 em 2.7% ao ano (até 2012), uma taxa de crescimento mais rápida do que a do setor de serviços (2.6% ao ano)! Globalmente, a porção de trabalhadores industriais na força produtiva total cresceu moderadamente, de 22% a 23%. É nas economias capitalistas maduras desenvolvidas onde houve a des­industrialização. A força produtiva industrial caiu 18%, de 130 milhões em 1991, para 107 milhões em 2012.
 A grande queda não aconteceu no número de trabalhadores industriais globalmente, mas no de trabalhadores da agricultura. O processo de sucção pelo capitalismo de camponeses e agricultores das áreas rurais e da transformação deles em trabalhadores industriais nas cidades não acabou. A porção da força de trabalho agrícola na força produtiva global decaiu de 44% para 32%. Então não devemos falar de des­ruralização, como Marx fez no meio de 1800? Esse é o grande fenômeno global dos últimos 150 anos. 

Claro, a maioria dos trabalhadores são do setor de serviços. Esse setor é mal definido: pertence a este setor qualquer um que não seja trabalhador industrial ou da agricultura. Esse setor era menor que a agricultura em 1991 (34% para 44%) mas agora é maior, com 45%, comparado com 32% para agricultura.

Enquanto eu discursava em Manchester, o centro da revolução industrial na Grã Bretanha no inicio do século dezenove, fui lembrado do trabalho de Friedrich Engels, o parceiro de Marx, e que gerenciava a firma alemã de seu tio na época. Quando jovem (24 anos), Engels escreveu "A condição da classe trabalhadora na Inglaterra" (publicado em 1845) e descreveu as condições horrendas de pobreza que os homens, as mulheres e crianças rurais eram sujeitadas quando foram trabalhar nas cidades urbanas de industrialização rápida no norte da Inglaterra. É a mesma história agora na Índia, China, sudeste da Ásia e na América ­Latina. Engels se concentrou nas condições de trabalho, mas em um prefácio de uma nova edição do seu livro em 1892, ele comentou que a Grã Bretanha estava sendo substituída rapidamente como o maior poder industrial e capitalista pela França, Alemanha e pelos EUA. "Seus produtores são muito mais novos que os da Inglaterra, mas crescem em um nível bem maior que o da última. Eles alcançaram a mesma fase de desenvolvimento que a indústria inglesa em 1844." E isso acontece agora para as tais economias emergentes da Ásia, América­ Latina e África, quando comparadas às economias capitalistas maduras da Europa, Japão e América do Norte.

Mas é verdade que a porção dos trabalhadores industriais nas economias maduras decaiu de 31% em 1991 para 22% agora. De fato, de acordo com McKinsey, o emprego industrial caiu 24% nas economias avançadas entre 1995 e 2005.
 Então isso quer dizer que o futuro do capitalismo se dará sem um proletariado industrial capaz de ser um agente de mudança e, por esse motivo, o 'pós­capitalismo' será uma sociedade sem indústrias, onde as pessoas podem esperar a redução de suas horas de trabalho com períodos maiores de 'lazer'?

Esse foi o tema que meu companheiro de painel Nick Srnicek propôs. Nick é um camarada da Geopolítica e Globalização na UCL (Universidade Global de Londres). Ele é o autor, junto com Alex Williams, de "Inventing the Future" (Verso, 2015) e o editor junto com Levi Bryant e Graham Harman de "The Speculative Turn" (Re.press, 2010)Nick explicou que, enquanto novas economias estavam sendo industrializadas, seu pico de industrialização veio antes do que para economias como a britânica no século dezenove. De fato, nenhuma economia alcançou mais de uma porção de 45% no emprego industrial. Então o futuro não é a indústria e uma classe trabalhadora industrial. E não deu em nada defender o retorno às manufaturas e indústrias como o único caminho para uma sociedade melhor. 

Tenho certeza que Nick está certo nesses pontos. Divergi no fato de que ele não esclarecia se uma sociedade pós-­capitalista, não-industrial, seria conquistada gradualmente enquanto o capitalismo se expandiria globalmente e a tecnologia substituiria o trabalho industrial pesado e as pessoas trabalhariam menos horas e poderiam usar seu tempo para si mesmas. A ideia de uma mudança em direção de uma sociedade prazerosa e não industrial foi o conceito de Keynes em 1930, argumentando a favor do capitalismo para seus estudantes no auge da Grande Depressão pelos 1930, quando muitos de deles começaram a olhar para o marxismo como a explicação para crises e a alternativa para o socialismo (veja meu post, http://thenextrecession.wordpress.com/2013/05/04/keynes­being­gay­and­caring-for­the­future­of­our­grandchildren/ ).

Keynes reconheceu que o mundo capitalista alcançaria um enorme crescimento do PIB per capita e entraria numa economia de lazer, sem pobreza. Bem, este blog tem revelado dados que mostram que a pobreza é ainda um terrível espectro sobre o mundo todo, uma característica inerente ao capitalismo, e longe de uma economia de lazer, as horas de trabalho diminuíram nas economias maduras e se mantiveram altíssimas em setores industriais de economias emergentes. Ainda trabalhamos duro para viver (exceto o 1%), em trabalhos cada vez mais precários

Não acho que podemos atingir uma sociedade pós-capitalista de economia de lazer através de uma mudança gradual. Será necessário um impulso revolucionário para mudar o modo de produção e as relações sociais de maneira global, mesmo que o potencial de produtividade de robôs e novas tecnologias já estejam disponíveis para a transição em direção à libertação do trabalho duro. O capitalismo se mantém no caminho como um entrave sobre a produção. com os capitalistas como uma classe poderosa oposta à liberdade.

A razão de que as economias capitalistas maduras perderam sua base industrial é a de que não era mais lucrativo que o capital investisse na indústria britânica no fim século XIX ou na indústria dos países da OCDE no final do século XX. Então o capital contrabalanceou esta queda de lucratividade se ‘‘globalizando’’ e encontrando mais força de trabalho para explorar.

E a lucratividade caiu porque a acumulação capitalista corta força de trabalho. Os capitalistas competem entre si para lucrarem mais. Aqueles com mais tecnologia podem passar na frente dos outros ao aumentar sua produtividade reduzindo os custos laborais cortando trabalhadores. A direção que seguem é sempre a de reduzir a quantidade de força de trabalho e aumentar os lucros. A contradição central, tal como foi explicada por Marx na lei da lucratividade, é que a redução da força de trabalho e o aumento da mecanização levam a uma eventual queda na lucratividade, o que faz com que a força de trabalho industrial seja reduzida nas economias maduras e expanda a indústria de maneira global. O capitalismo é um modo de produção que caminha na direção da mecanização, mas a mecanização também levará à sua própria morte, pois ela é um modo de produção voltada ao lucro e não a uma necessidade social, e mais mecanização significará menos lucro. Isto mostra que enquanto caminhamos para uma economia de robôs, o lucro do capital e os interesses sociais se tornarão cada vez mais incompatíveis. E uma sociedade de lazer é apenas um sonho impossível.

O crescimento do emprego está caindo em economias capitalistas avançadas, ele tem sido muito menor do que 1% ao ano no século XXI.

O engenheiro computacional e empresário do Vale do Silício, Martin Ford, coloca a situação da seguinte maneira: “enquanto as tecnologias avançam, as indústrias se tornam cada vez mais intensivas em capital e menos intensivas em trabalho. A tecnologia pode criar novas indústrias e elas são quase sempre intensivas em capital”. A luta entre capital e trabalho é então intensificada.

E tudo isso depende da luta de classes entre os trabalhadores e os capitalistas sobre a apropriação do valor criado pela produtividade do trabalho. E claramente os trabalhadores têm perdido esta batalha, particularmente em décadas recentes, sob a pressão das leis anti-sindicais, o fim da proteção ao emprego, a redução dos benefícios, o aumento do exército de mão-de-obra de desempregados e subempregados e através da globalização das indústrias.

De acordo com o relatório da OIT, em 16 economias desenvolvidas, os trabalhadores obtiveram 75% da renda nacional nos anos 1970, mas este valor caiu para 65% alguns anos antes da crise econômica. Este valor cresceu em 2008 e 2009 — mas apenas porque a renda nacional se afundou nestes anos — antes de retomar seu curso descendente. Mesmo na China, onde os salários triplicaram na última década, a fatia da renda nacional para os trabalhadores diminuiu. De fato, isto foi o que Marx queria dizer com “pauperização da classe trabalhadora.”

E isso será diferente com os robôs? A economia marxista diria que não, por duas razões. A primeira, a teoria econômica marxista começa a partir do fato de que apenas quando os seres humanos realizam qualquer trabalho é que uma coisa ou um serviço é produzido. Então, apenas o trabalho pode criar valor no capitalismo. E o valor é necessário para o capitalismo. O valor é a substância do modo capitalista de produção. Os donos do capital controlam os meios de produção criados pelo trabalho e só o colocarão em uso para se apropriar do valor criado pelo trabalho. O Capital não cria valor por si só.

Agora, se toda a tecnologia, produtos e serviços pudessem reproduzir a si mesmos sem trabalho vivo, apenas a partir de robôs, as coisas e os serviços seriam criados, mas a criação do valor (em particular, o lucro e a mais-valia) não seriam. Como Martin Ford declara: quanto mais as máquinas comandarem a si próprias, o valor que o trabalhador médio adiciona começa a cair.” Então a acumulação sob o capitalismo cessaria logo antes que os robôs tomassem conta de tudo, porque a lucratividade desapareceria. Esta contradição não pode ser resolvida sob o capitalismo.

Nós nunca chegaremos a sociedades robóticas; nós nunca chegaremos a sociedades livres do trabalho — não sob o capitalismo. Crises e explosões sociais ocorreriam muito antes disso.


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