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sábado, 28 de fevereiro de 2015

Sete estratégias para se proteger da inflação em alta


Olá alunos,

Em 2014, o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) ficou em 6,41%, uma alta de 0,5 ponto percentual em relação à inflação de 2013 (de 5,91%). Foi a maior alta anual de preços desde 2011, quando a inflação ficou em 6,5%. A postagem de hoje oferece dicas de como gerenciar o dinheiro diante dessa alta dos preços.

Esperamos que gostem e participem.

Fellype Fagundes e Carlos Araújo
Monitores da disciplina "Economia Política e Direito" da Universidade Federal Fluminense


O índice de inflação divulgado pelo IBGE nesta sexta-feira mostrou o que muitos brasileiros já estão há algum tempo sentido no bolso - uma aceleração da alta de preços.

Em 2014, o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) ficou em 6,41%, uma alta de 0,5 ponto percentual em relação à inflação de 2013 (de 5,91%). Foi a maior alta anual de preços desde 2011, quando a inflação ficou em 6,5%.

O resultado ficou abaixo do teto da meta definido pelo Banco Central (de 4,5% com margem de dois pontos percentuais para cima e para baixo), mas o ano já começa com economistas e analistas de mercado prevendo uma inflação acima da meta em 2015 (6,56%).

"A inflação de dezembro (de 0,78%), ainda que maior que a de novembro (0,51%), acabou levando o índice para baixo por uma questão estatística: em 2013 os preços haviam subido muito no mesmo período (0,92%). Foi isso que segurou o índice de 2014 nesse final de 2014. Mas em 2015 haverá uma pressão muito grande dos preços administrados, então será ainda mais complicado cumprir a meta", diz o economista Paulo Picchetti, especialista em índices de inflação da Fundação Getúlio Vargas.

Quer saber como proteger seu dinheiro da alta de preços e fazer o salário voltar a sobrar no fim do mês? A BBC Consultou analistas financeiros e economistas que sugerem sete estratégias:

1) Invista

 

Quanto maior a inflação, mais se perde ao deixar o dinheiro poupado parado e maior deve ser a remuneração de um investimento para que se consiga obter ganhos reais com ele.

Diante da atual volatilidade do cenário econômico, muitos analistas financeiros têm recomendado investimentos em renda fixa, como títulos do tesouro ou fundos de investimento e outros produtos financeiros atrelados a esses títulos (LCI, LCA e CDB).

"E como a expectativa é que os juros parem de subir entre abril e meados do ano, a preferência seria pelos pré-fixados", diz Michael Viriato, professor do Insper.

A poupança, apesar da vantagem de ser isenta de Imposto de Renda e taxas de administração, perde cada vez mais atratividade com a alta dos juros. "No ano passado, por exemplo, quem investiu em poupança teve um ganho real de cerca de 0,6%, quase nada", diz Viriato.

Para o economista e consultor financeiro William Eid, uma opção para quem tem mais recursos (mais de US$ 100 mil) é investir em títulos brasileiros no exterior. "Diversas empresas emitem títulos no exterior", diz ele. "Além da proteção contra inflação, ainda temos a proteção cambial."

No passado os imóveis já foram considerados uma boa proteção contra a inflação. Para Eid, porém, as perspectivas ruins para o crescimento da economia, que devem frear o mercado imobiliário, tornam a opção menos atrativa.

"Os imóveis foram um bom investimento há alguns anos porque se valorizaram bastante, mas isso foi algo pontual. Hoje não recomendo como investimento", concorda Viriato.

2) Negocie aumentos

 

Para que o dinheiro continue (ou comece) a sobrar no final do mês, mesmo com a alta dos preços, especialistas recomendam que, sempre que possível, se negocie os aumentos de produtos e serviços consumidos.

"É claro que você não pode pechinchar o preço da carne em um supermercado, mas talvez possa fazê-lo em um mercado de bairro em que compra com frequência", diz Mauro Calil, consultor financeiro e fundador da Academia do Dinheiro.

“Se os aumentos da escola de seu filho não são razoáveis – se são de 10%, 20% muito mais altos que a inflação oficial (de 6,41%), vale a pena se juntar com outros pais para questionar o porquê desse aumento e pedir uma redução”, diz o economista Samy Dana, da FGV.

“Afinal, seu salário não vai subir tudo isso.”

3) Pesquise preços

 

Nos tempos de hiperinflação, nos anos 80 e 90, era preciso correr de uma loja a outra para pesquisar preços. E muitas vezes ao concluir qual o local mais barato, o consumidor era surpreendido por um reajuste de preços no local.

Hoje, não só a inflação em patamares mais baixos facilita a comparação, como a internet é um grande aliado de quem quer se proteger da alta de preços.

"Pesquisar preços é uma tarefa que todo consumidor deve fazer antes de ir as compras - e hoje, com a internet, isso está muito mais fácil ", diz Dana.

Ele diz que hoje as pessoas podem não só entrar no site das empresas para conferir preços, como também há uma série de apps e sites em que as pessoas podem comparar diversos lugares (como o Buscapé, Zoom e Dica de Preços, para mencionar alguns exemplos).

4) Adie compras

 

Muitos comércios fazem promoções depois de datas festivas. Por isso, comprar o que você precisa em janeiro, em vez de dezembro, pode significar preços bem mais baixos.

Segundo os analistas, quanto mais um consumidor adiar a compra melhor - e não só por causa da possibilidade de conseguir promoções.

"Muitas vezes as pessoas não compram por necessidade, mas por impulso", diz Viriato, do Insper.

"Ao esperar um tempo antes de comprar elas têm a chance de perceber se realmente precisam - ou querem - fazer a aquisição. Além disso, com mais tempo para pesquisar podem descobrir que a compra não era um bom negócio."

5) Substitua itens de consumo

 

Uma forma de reduzir o impacto da inflação sobre o seu orçamento é cortar os produtos que você percebe que estão ficando mais caros e substituí-los por outros produtos ou similares de outras marcas.

É claro que ninguém é obrigado a substituir carne por frango ou ovo - sugestão feita pelo ex-secretário de política econômica do Ministério da Fazenda Márcio Holland, que causou grande polêmica no ano passado.

"Mas cada um pode fazer uma análise de seu perfil de gastos para entender quais produtos e serviços são de fato importantes em sua vida e quais são o que eu chamo de 'gastos tolos', ou seja, aquelas coisas em que as pessoas acabam gastando muito, mas que não lhes trazem um bem-estar duradouro", diz Calil.

"São esses gastos que devem ser cortados ou substituídos."

Viriato, do Insper, dá o exemplo do item "alimentação fora de casa" um dos que mais subiu no ano passado, segundo o IBGE.

"Pode ser difícil para o trabalhador levar almoço para o trabalho - ele vai ter de cozinhar, transportar e guardar o almoço em algum lugar. Mas se ele conseguir levar ao menos o lanche, provavelmente terá mais dinheiro no fim do mês", diz.

6) Compras coletivas

 

Segundo Dana, outro recurso que pode ajudar os consumidores a driblar a alta de preços são as compras coletivas nos clubes de compras e 'atacarejos' - lojas que vendem no atacado para pessoas físicas.

Tais lojas oferecem um preço bem mais vantajoso para compras de grande quantidade. "Muitas famílias estão se juntando para poder comprar nesses lugares sem ter de ficar com um estoque gigantesco em casa", diz ele.

De acordo com a consultoria Nielsen, no primeiro semestre do ano passado, as vendas nos atacarejos cresceram 9% em relação a 2013.

Os preços seriam menores que os do varejo em 69% dos itens pesquisados pela Nielsen. E, segundo Calil, podem chegar a ser 30% mais baixos.

Um dos cuidados que devem ser tomados por quem adota por essa opção, porém, é checar o prazo de validade dos produtos. Também é preciso considerar que alguns clubes de compras cobram uma anuidade de seus associados.

7) Estoque produtos baratos

 

Para alguns consultores, vale a pena comprar em grande quantidade um produto que a família consome com frequência se ele for encontrado em promoção.

"Se você tem um bebê, numa promoção cada fralda de um pacote pode sair por menos de R$ 1, por exemplo, metade do que você pode chegar a pagar se tiver de comprar o produto na urgência, em uma farmácia de bairro. Então vale a pena estocar", diz Calil.

É claro que não é todo produto que pode ser estocado. E também é preciso medir bem as quantidades, para evitar o desperdício.

"A inflação que temos hoje ainda está muito longe da inflação que vivemos nos anos 80, então não podemos exagerar ao fazer estoque", diz Viriato.

"No caso da carne, por exemplo, provavelmente os custos de se ter um freezer para manter o alimento seriam altos. Além disso, às vezes a família consome ou desperdiça mais porque sabe que a dispensa está cheia."

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sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

Por que seus custos parecem ter subido mais que a inflação oficial?




Olá alunos,

A alta da inflação acumulada nos últimos 12 meses é de 6,56%, o que preocupa, segundo economistas, porque ultrapassa o teto da meta de inflação definida pelo Banco Central - de 6,5%, porém o Brasil ainda está longe do descontrole vivido nos anos 80 e 90, quando se chegou a uma inflação de três dígitos. A postagem de hoje analisa os motivos da alta na inflação e seu impacto no cotidiano brasileiro.

Esperamos que gostem e participem.

Fellype Fagundes e Carlos Araújo
Monitores da disciplina "Economia Política e Direito" da Universidade Federal Fluminense




O restaurante por quilo da esquina aumentou seu preço de R$ 30 para R$ 36 - ou seja: alta de 20%. A escola das crianças já enviou um e-mail informando que a mensalidade será 12% maior em 2015. E nos mercados, o preço da carne faz você repensar os planos para um churrasco com os amigos no fim do ano.
Já teve a impressão de que a inflação no seu cotidiano parece ainda maior do que indicam os índices oficiais?

Segundo dados do IBGE divulgados nesta sexta-feira, o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) - principal indicador da inflação no país - subiu 0,51% em novembro. O índice representa uma aceleração em relação a inflação de outubro, de 0,42%, mas surpreende positivamente muitos analistas (na média eles esperavam variação de 0,55%, segundo a Agência Bloomberg).

A alta acumulada nos últimos 12 meses é de 6,56%, o que preocupa, segundo economistas, porque ultrapassa o teto da meta de inflação definida pelo Banco Central - de 6,5%. "Mas esperamos um desaquecimento do IPCA em dezembro, o que garantiria uma alta de 6,4%", diz Étore Sanchez, da LCA consultores.

Evidentemente, o Brasil ainda está a anos luz do descontrole vivido nos anos 80 e 90, quando se chegou a uma inflação de três dígitos. Mas, nas ruas, não é difícil notar que a inflação voltou a incomodar - e, para muitos, a alta de preços parece ser até maior do que mostram os índices oficiais.

"De fato há um descompasso (entre a percepção da inflação cotidiana e o índice oficial) que pode ser atribuído tanto à forma como gravamos a variação de preços na memória quanto a limites esperados no cálculo desses índices, que fazem com que a inflação experimentada por alguns indivíduos seja de fato mais alta", explica Paulo Picchetti, economista da Fundação Getúlio Vargas (FGV)

Memória seletiva

Segundo Picchetti, parte da explicação para tal descompasso estaria ligada a um fenômeno econômico descrito pelo psicólogo Daniel Kahneman, ganhador do prêmio Nobel de Economia.

"As pessoas tendem a registrar mais e reter por mais tempo na memória os preços que subiram, mas não prestam muita atenção nos que caíram", diz o economista.

"Todo mundo ainda lembra que o quilo do tomate chegou a R$ 15 reais no ano passado, mas agora que baixou para R$ 5 ninguém nota", concorda André Chagas, coordenador do IPC, índice de inflação calculado pela Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas (Fipe).

No caso do IPCA divulgado nesta sexta-feira, por exemplo, a aceleração foi puxada pelos alimentos e moradias, que subiram 0,77% e 0,69%, respectivamente - ou seja, são esses os preços que devem ter "revoltado" os consumidores no mês passado.

Só a carne teve alta de 3,46% em novembro - talvez seja uma sábia decisão adiar mesmo aquele churrasco. E esquecer o filé com fritas: a batata ficou quase 40% mais cara em novembro (embora acumule baixa no ano).

A gasolina teve um aumento de 1,99% e a energia elétrica ficou 1,67% mais cara. Por outro lado, os preços dos artigos de residência ficaram 0,04% mais baratos, possivelmente como uma consequência dos descontos da Black Friday, segundo explica Sanchez, fazendo a ressalva de que é possível que haja outras explicações para a queda.

"Provavelmente as altas de produtos como batata e limão, impulsionados pela estiagem, vão ser bastante lembrados pelos consumidores", acredita, Chagas, da Fipe.

"Mas será mais difícil ver alguém conversando sobre o impacto positivo da falta de chuvas no orçamento. Aqui em São Paulo, por exemplo, quem atingiu as metas de economia de água, está recebendo desconto."

Outro exemplo seria o item educação, que não aumentou muito nos índices do último mês (teve alta de 0,21% segundo o IPCA). "Os aumentos de mensalidade só entram no cálculo no início do ano", diz Chagas. "Mas como a maioria dos pais já foi comunicada sobre o aumento, ele já causa preocupação."

Inflação individual

O segundo fator que explica a diferença entre a inflação percebida no cotidiano e a dos índices é que, para muitos, as duas podem ser mesmo significativamente diferentes, segundo Picchetti e Chagas.

Acontece que os índices inflacionários são calculados com base em uma cesta de produtos montada pelos pesquisadores. Eles acompanham algumas famílias selecionadas durante um ano para entender sua composição de gastos e ponderam o peso de cada produto na cesta com base nessa avaliação.

No caso do IBGE, a pesquisa de preços é feita em regiões metropolitanas e as famílias pesquisadas têm uma renda de até 40 salários mínimos A ideia é que elas sejam "representativas" dos gastos dos brasileiros no geral, mas basta notar a diferença entre seu carrinho e a dos outros clientes de um supermecado para se entender que o método tem seus limites.

"É claro que o seu perfil de gastos pode ser bem diferente dos gastos desse conjunto de 'famílias representativas' usado para se fazer o índice", diz Picchetti.

Ou seja, é possível que sua percepção seja a de que os preços estão subindo mais por que, de fato, a sua "inflação individual" - ou os preços que mais interessam para você - estão subindo mais.

Uma alta muito grande do açúcar, por exemplo, pode ter um impacto pequeno na vida de uma família média, mas será um desastre para uma doceira. Famílias com casa própria evidentemente não são atingidas por aumentos do aluguel, embora eles tenham um impacto no índice oficial - só para mencionar alguns exemplos.

Picchetti explica que a "inflação de cada um" pode variar de acordo com uma série de fatores, que vão de classe social e idade até a região ou cidade em que cada um vive. Segundo o IPCA, por exemplo, a inflação de novembro foi de 0,03% em Vitória e 1,21% em Goiânia.

"Se você vive fora das regiões metropolitanas pesquisadas pelo IBGE, a sua inflação pode ser diferente. É possível, por exemplo, que a tarifa de ônibus tenha aumentado mais em sua cidade ou que ela seja abastecida por um centro produtor de alimentos que sofreu mais com a seca", diz o economista da FGV.

Sanchez, da LCA consultores, acrescenta um terceiro fator que pode aumentar a diferença entre a inflação percebida por alguns indivíduos e a dos índices oficiais. "A cesta do IPCA tem algo entre 300 e 400 produtos, mas há uma defasagem na sua seleção", diz o economista.

"Até 2011, por exemplo, a cesta incluía o item fralda de pano, que ninguém mais usava, porque se baseava em uma pesquisa de orçamento familiar feita anos antes. Hoje, muitas famílias de classe média podem ter um tablet, mas o produto não está no índice."

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quinta-feira, 31 de julho de 2014

Pais do Real defendem reformas para garantir seu legado





Olá alunos,

O Plano Real foi o principal responsável pelo controle da hiperinflação no Brasil. A postagem de hoje busca refletir sobre as reformas econômicas necessárias para consolidar seu legado.

Esperamos que gostem e participem.

Fellype Fagundes e Carlos Araújo
Monitores da disciplina "Economia Política e Direito" da Universidade Federal Fluminense


Vinte anos depois do lançamento do real, economistas ligados ao plano que conseguiu frear a hiperinflação no Brasil defendem que é preciso fazer reformas para consolidar seu legado.

Em entrevista à BBC Brasil nas vésperas do aniversário da moeda – que começou a circular em 1 de julho de 1994 - os arquitetos do Plano Real Edmar Bacha e Pérsio Arida e o ministro da Economia durante seu lançamento, Rubens Ricúpero, sustentam que a inflação ainda preocupa. Eles criticam o que veem como excesso de "leniência" do atual governo com relação a alta de preços.

"Hoje não há mais o risco de uma hiperinflação – que ocorre quando você perde inteiramente o controle dos preços e eles aumentam um, dois, três por cento ao dia", diz Ricúpero, hoje diretor da escola de economia da FAAP.

"Mas ainda temos uma inflação crônica alta - de 6% - que já está causando muito estrago. Os protestos do ano passado e os deste ano, de categorias que querem aumento salarial, como motoristas de ônibus e metroviários, estão muito ligados a essa inflação elevada, que agrava os conflitos distributivos."
Acompanhando os preços

Segundo Ricúpero, com tal nível de escalada de preços, aqueles que vivem de um rendimento fixo, ou salário, já têm de se mobilizar para não ver seu poder de compra reduzido gradativamente.

"É o que está acontecendo - e a situação vai piorar. Primeiro porque a (presidente) Dilma (Rousseff) deu um aumento de 15% aos funcionários públicos há três anos, mas a inflação já o corroeu, acumulando 19%. Então essa categoria também deve se mobilizar", opina o ex-ministro.

"Segundo, porque o governo está segurando a inflação com os preços administrados, que aumentaram apenas 1,5%. Há repressão, congelamento de preços como o da gasolina e do diesel, da energia elétrica, das tarifas de ônibus, pedágios e etc. E vai chegar um momento que o governo terá de mexer nisso."

Para Bacha, no que diz respeito a política anti-inflacionária, o maior problema é que o Brasil está virando "o país dos preços surreais". "Não pode estar certo a loja da Apple aqui ter os preços 85% mais altos que os de Nova York", diz o economista.

Entre as causas do que ele considera um desajuste de preços estariam a oferta ineficiente e o câmbio sobrevalorizado.

"Temos um problema importante de carestia (escassez de produtos), que está ligado a falta de produtividade", diz ele.

"Precisamos de uma série de reformas para retomar o caminho do crescimento com inflação baixa, a começar por uma maior abertura e integração à economia internacional."

Estabilidade

Já para Arida, hoje sócio do banco BTG Pactual, um dos problemas da atual política de combate a inflação é que a meta do Banco Central de 4,5% ao ano, com tolerância de 2 pontos percentuais para cima e para baixo, é muito alta – e o governo ainda permite que a inflação se estabilize em seu topo.

"Preferiria a meta chilena, de 3%, com um ponto percentual de tolerância", diz o economista.

Segundo Arida, para segurar a inflação sem ter de subir muito a taxa de juros, o governo deveria ter uma estratégia centrada no corte de gastos do Estado.

"Ter moeda estável com juros altos é melhor do que ter hiperinflação, ou moeda instável. Mas esse não é o lastro certo para a moeda. Precisamos lastrear a estabilidade na austeridade fiscal."

A BBC Brasil procurou o ministério da Fazenda para questioná-lo diretamente sobre as críticas feitas a política inflacionária, mas a reportagem não obteve uma resposta até a publicação desta matéria.

Gastos

O governo tem reiterado que a alta de preços está sob controle e não há razão para se preocupar.
"A inflação está caindo firmemente e vai continuar caindo nos próximos meses", disse o ministro da Fazenda, Guido Mantega, em maio.

Brasília também defende que os gastos públicos não têm um impacto significativo sobre a escalada de preços.

"No ano passado, economizamos R$ 88 bilhões. E nos últimos anos fizemos superávit de 1,8%, 1,9% do PIB. O governo tem poupado a cada ano e não é o gasto público que tem pressionado a inflação", disse o ministro recentemente, em entrevista à TV Brasil.

Fernando Sarti, economista da Unicamp, concorda - e acrescenta que é possível crescer com uma inflação de 6%, sem que haja grandes distorções na economia.

"Esse debate sobre inflação está bastante contaminado por questões políticas e interesses rentistas, dos que lucram com uma alta de juros", acredita.

"Também não vejo um grande problema no governo usar a política de preços da Petrobrás ou outras estatais para segurar o índice, desde que no meio tempo estejam sendo tomadas outras medidas para segurar os preços no médio prazo. Temos uma inflação de oferta, não demanda, que deve ser combatida com mais investimentos."

O fim das surpresas

Quando foi lançado, em 1994, o desafio do real era conter a escalada de preços que passou de 2.000% ao ano no início dos anos 90.

Cinco outros planos econômicos haviam fracassado na década que antecedeu o lançamento da atual moeda, deixando a sociedade brasileira traumatizada.

Entre as medidas polêmicas adotadas nos anos 80 e início dos anos 90 estiveram o tabelamento de preços do Plano Cruzado, que acabou provocando uma crise de desabastecimento, e o confisco do dinheiro da poupança e da conta corrente pelo Plano Collor.

Para muitos economistas, um dos trunfos do Plano Real foi justamente a transparência do plano, que não teve surpresas.

"Todas as medidas foram anunciadas com meses de antecedência, o que permitiu à sociedade brasileira se preparar e evitou desajustes nos níveis de preços", diz o economista Marcelo Moura, professor do Insper.
Em março daquele ano foi lançada a chamada Unidade Real de Valor (ou URV), uma espécie de moeda virtual que tinha paridade de igual para igual com o dólar.

Gradualmente todos os preços e contratos foram sendo convertidos para essa nova unidade monetária, cujo valor relativo ao cruzeiro real era corrigido diariamente.

O real entrou em circulação quatro meses depois, quando uma URV valia 2.750 cruzeiros novos.

Reformas

"Mas é preciso lembrar que o lançamento da nova moeda também veio acompanhado de uma série de reformas que contribuíram para conter a escalada de preços, como as regras de disciplina fiscal", diz Carlos Braga, professor da escola de negócios IMD, na Suíça.

"A liberalização parcial da economia (realizada no governo Collor) também ajudou a conter os preços ao ampliar a concorrência", opina.

Uma das críticas ao Plano Real diz respeito aos limites de sua âncora cambial.

Muitos economistas acreditam que o governo de Fernando Henrique Cardoso teria demorado excessivamente para desvalorizar a moeda em 1999, o que reduziu muito o nível das reservas do país e obrigou o Brasil a recorrer a um empréstimo do FMI (Fundo Monetário Internacional).

"O real de fato dependeu demais do câmbio para baixar a inflação", admite Ricúpero. "A moeda logo no início se valorizou mais que o dólar e esse foi o começo do processo de perda de competitividade da indústria."

Arida concorda que a desvalorização poderia ter ocorrido antes. "Mas também é fácil ser engenheiro de obra pronta", justifica. 

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