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quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

O capitalismo e suas origens



Olá alunos,

A história do capitalismo foi retratada pelo autor Thomas Piketty em sua obra “O Capitalismo do século XXI”, fazendo com que haja uma discussão, a partir do conhecimento histórico, sobre o futuro. A postagem de hoje busca uma maior compreensão dos desafios que encontramos hoje , de acordo com esse olhar diferenciado da história.

Esperamos que gostem e participem.
Joyce Borgatti e Palloma Borges.
Monitoras da disciplina “Economia Política e Direito” da Universidade Federal Fluminense.

“O Capitalismo no século XXI”, de Thomas Piketty, é uma obra de impacto porque vai às raízes do capitalismo, demonstra sua dinâmica histórica e indica desafios para o futuro. Piketty se volta para a literatura clássica para olhar a história e ver como era a vida naquele momento (que hoje faz parte da história), buscando compreendê-la.

O ano é 1683, quando, aos 70 anos, a senhora Moll Flanders narra sua vida. É a história dessa mulher que Daniel Defoe (1660-1731), escritor e jornalista inglês, conta em “As venturas e desventuras da Sra. Moll Flanders”, considerada como prosa inglesa moderna do século XVIII, e que se trata de belíssima literatura.

Retrato de época

Daniel Defoe produziu uma obra literária que se tornou clássica com livros como “Robinson Crusoé” e “Moll Flanders”, que foram publicados em um período de seis anos (1719 a 1724). A história da senhora Moll é em parte autobiografia do trabalho do próprio autor como comerciante/viajante, da pesquisa na cadeia quando preso, e enfim, é o registro em prosa da leitura de uma vida, de um tempo e de uma realidade.

Além da narrativa de um momento histórico, e estamos falando de 350 anos atrás, Defoe traz a questão da mulher para o centro da história, relatando, em primeira pessoa, uma vida intensa, como afirmou Virginia Woolf em 1919, “... desde o começo é posto sobre ela (Moll) o ônus de existir. Ela depende de sua própria inteligência e raciocínio para enfrentar cada situação que surge, com uma moralidade de ordem prática que ela mesma forjou para si”.

Mas, estamos no nascedouro da revolução industrial, na base da transição da economia de mercado para a forma capitalista. Moll sai da província e vai viver em Londres, contando as peripécias engendradas para acumular capital para gerar garantia de renda presente e futura, condição para não viver na pobreza, nem submetida e ou subordinada. Acumular capital é condição para sua liberdade. 

Com a palavra Moll:

“Logo aprendi, por experiência própria, que no tocante a matrimônio a situação mudara, e eu não deveria esperar em Londres o que tivera na província; aqui os casamentos resultavam de cálculos políticos para reunir interesses e fechar negócios, e o amor tinha pouca ou nenhuma participação no assunto. Como dissera minha cunhada de Colchester, beleza, inteligência, cortesia, bom senso, conduta, educação, virtude, piedade ou qualquer outro atributo, físico ou moral, não era recomendação para uma mulher, pois só o dinheiro a tornava atraente; os homens escolhiam as amantes por afeto, e uma cortesã tinha que ser bela, bem-feita, ter rosto gracioso e fino comportamento; com relação à esposa, não havia deformidade que chocasse o gosto, nem defeito que alterasse a escolha: era o dinheiro que contava, o dote nunca era disforme ou monstruoso, o dinheiro era sempre agradável, não importava como fosse a esposa”.

Dinheiro

As libras percorrem cada página, criando a moral correspondente, indicando o cálculo econômico para a sobrevivência, para a poupança e para a formação do capital, os investimentos e a forma de obter renda presente e acumular a riqueza futura.
É próprio para o capital obter taxas de retorno superior ao crescimento econômico, produzindo e ampliando as desigualdades sociais. Defoe revela, na história de vida contada por Moll, as fontes da origem daquilo que Piketty analisa com grande acuidade, algumas das engrenagens do capitalismo. Leitura para entender o passado, resignificar o presente e para lutar por outro futuro.


sexta-feira, 22 de maio de 2015

Lutas vãs



Olá alunos,
As máquinas à vapor, principalmente os gigantes teares, revolucionou o modo de produzir. Em muitas regiões da Europa, os trabalhadores se organizaram para lutar por melhores condições de trabalho. A postagem de hoje vem fazer uma conexão, de maneira histórica, da luta dos trabalhadores de Turim com o silêncio dos trabalhadores de hoje em relação à Lei de Terceirização.

Esperamos que gostem e participem.
Joyce Borgatti e Palloma Borges, monitoras da disciplina Economia Política e Direito da Universidade Federal Fluminense.

Um filme muito tocante ao contar uma história de operários explorados é I Compagni, os companheiros, de Mario Monicelli, um dos top ten da minha lista pessoal de diretores de cinema. Monicelli desenrola seu enredo em Turim, final do século XIX, onde a industrialização avança para o enriquecimento dos industriais e o esforço brutal dos trabalhadores obrigados a 14 e mais horas de trabalho diário.

A seu modo, uma peça épica sobre a luta operária, e nela trafega o pregador profissional de revolta, um Marcello Mastroianni anarcossindicalista, de barba e chapéu. Ficção atada solidamente a episódios e personagens autênticos de um tempo distante. Obra de 1963, a que assisti em Nova York nos começos do ano seguinte, em um dos dias de um estágio na Time-Life. Quando a palavra fim estampou-se sobre a tela, o público que lotava a sala ergueu-se e bateu palmas. Era mesmo uma história empolgante.

Quando penso nos efeitos inevitáveis da terceirização, e do precariado já instalado, me ocorre recordar o filme de Monicelli. Aquele industrial e aquele operário sumiram de vez, está claro, bem como os cenários em que se agitavam. Habitamos um mundo metamorfoseado pelo galope da tecnologia, em mutação constante. Terceirização e precariado andam inexoravelmente na contramão, representam um amplo passo atrás a nos devolver a um passado de roupa nova, paradoxalmente sintonizado com o presente e, no entanto, capaz de reproduzir aqueles tormentos e vicissitudes.

 O fenômeno não é exclusivamente brasileiro. É global, nesta nossa Terra sempre incapaz de dar guarida aos seus santos, como diria Bernard Shaw. A tecnologia progride juntamente com a irracionalidade. E com a prepotência de um sistema que aprofunda o abismo entre ricos e pobres. O mal está diagnosticado, sua evidência, aliás, é insuportável, mas os poderosos do mundo recusam-se a aviar a receita óbvia para reconduzir a humanidade em peso ao domínio da razão. Não a consideram do seu interesse.

A regra imposta pelo credo neoliberal, a religião do mercado, privilegia a especulação, humilha a produção e penaliza inexoravelmente o trabalho. Inescapável reflexão, nuvem preta a ensombrecer o dia 1º de Maio. Pergunto aos meus melancólicos botões quantos empresários nativos já aderiram alegremente ao rentismo. Suspiram: muitos, muitos...
De paletó abotoado e gravata, na noite de terça 28 fui à Faculdade de Direito do Largo de São Francisco que em tempos remotíssimos frequentei como estudante, para participar do encerramento de um ciclo de homenagens ao professor Fábio Konder Comparato. Tratou-se, de fato, de uma aula magna ministrada pelo mestre, sábio elegante e desassombrado. Ele próprio supõe-se pessimista, mas não concordo: formula até um plano para redimir o Brasil. A longo prazo, admite, destinado, porém, a mobilizar a sociedade civil e a quebrar de vez a espinha da oligarquia. Eu não consigo imaginar este dia radioso, sequer contamos com os sans culottes.

Autorizado a tomar a palavra, declarei-me aluno do homenageado, e feliz por isso, ao perceber todo o peso da herança de três séculos e meio de escravidão, pelo qual continuam de pé a casa-grande e a senzala, e se quisermos, os sobrados e os mocambos, presentes nas nossas metrópoles. De todo modo, sem padecer da mesma herança, o resto do mundo também sofre o mal da desigualdade, cada vez mais monstruosa, fiel do Moloch neoliberal, entregue à oligarquia das multinacionais que mandam mais, infinitamente mais, do que os governos nacionais.

Receio que para piorar a nossa situação, e apesar das suas inesgotáveis potencialidades, mas com a agravante do seu atraso largamente demonstrável, o Brasil já se adéque ao viés global.