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quinta-feira, 18 de agosto de 2016

“Projeto de renegociação da dívida dos estados sacrifica servidores"


Olá alunos,

A notícia de hoje procura discutir o projeto de renegociação das dívidas dos Estados. Nessa breve entrevista, o Presidente da Federação Brasileira de Associações de Fiscais de Tributos Estaduais, Roberto Kupski, alerta para os riscos da proposta.

Esperamos que gostem e participem.
Palloma Borges, monitora da disciplina “Economia Política e Direito” da Universidade Federal Fluminense.

A Câmara dos Deputados adiou para a próxima semana a votação do projeto de renegociação das dívidas dos Estados junto à União, prevista inicialmente para a terça-feira 2. As negociações emperraram em meio à falta de consenso sobre as contrapartidas exigidas dos entes federativos em troca do alongamento da dívida e da carência nas parcelas iniciais.
Na proposta original do ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, exigia-se um limite de gastos com pessoal, a proibição de reajustes a servidores públicos por dois anos e a fixação de um teto para os gastos públicos. A equipe econômica do governo interino viu-se forçada, porém, a rever diversos pontos, por conta das pressões de parlamentares de sua própria base.
Na avaliação de Roberto Kupski, auditor-fiscal da Receita do Rio Grande do Sul e presidente da Federação Brasileira de Associações de Fiscais de Tributos Estaduais (Febrafite), as contrapartidas exigidas violam a autonomia dos estados e o Pacto Federativo, além de empurrar a conta da crise aos servidores. Confira a entrevista concedida à revista CartaCapital:

CartaCapital: A proposta da União resolve a situação fiscal dos estados?
Roberto Kupski: O projeto não resolve a situação da dívida dos estados, pois os débitos permanecem após os mandatos dos atuais governadores. Ele traz um alívio financeiro, o que é importante, especialmente para os mais endividados, como Rio Grande do Sul, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Alagoas e São Paulo. Mas o saldo que não vai ser pago agora terá de ser quitado mais para frente, com juros de 4% ao ano. Portanto, dentro de dois ou três anos os governadores podem estar de pires na mão novamente.

CC: As contrapartidas exigidas pelo governo federal são excessivas?
RK: Sem dúvida, os servidores públicos correm o risco de ficar sem reajuste salarial, sem aumento, sem adequação. Os concursos públicos podem ser suspensos. Nos estados, há forte carência de profissionais em três áreas que exigem muita mão de obra: segurança, educação e saúde. De que adianta ter um hospital equipado se não houver médicos? Qual é o sentido de ter uma escola belíssima sem professores? Qual será a utilidade dos quarteis e das viaturas sem policiais para patrulhar as ruas?
Esse projeto mexe em dezenas de dispositivos da Lei de Responsabilidade Fiscal, com implicações muito sérias. A Câmara não deveria levar um projeto desta magnitude ao Plenário de forma tão açodada, sem uma discussão mais ampla em comissões. Os 513 deputados não têm condição de conhecer com afinco o que será votado, a toque de caixa.
CC: Estão empurrando a conta aos servidores. É isso?
RK: Exatamente, mas o servidor público não é o responsável por essa queda da atividade econômica, que decorre muito de uma política econômica equivocada conduzida pela União. A principal fonte de arrecadação dos estados é ICMS, que incide sobre o consumo. A diminuição dos investimentos leva à redução do emprego, da renda, do imposto a ser recolhido. Deveríamos nos preocupar em fazer a receita crescer, e não diminuir. Esse projeto, além de prejudicar os servidores, pode esculhambar com a política do estado.

CC: E todo esse sacrifico é para honrar o pagamento de juros?
RK: Exato, nisso ninguém mexe. Da mesma forma, ninguém parece preocupado em discutir como gerar receita, só se olha para a despesa, para os gastos com pessoal, para os investimentos. Além disso, a União está extrapolando sua competência. Como pode dizer que os estados do Rio Grande do Sul e do Amazonas, em um País continental como o nosso, vivem a mesma situação, para determinar, numa canetada, que não pode mais haver concurso público em determinada área? Um estado pode estar bem em uma área, e ter carência em outra. A decisão vai partir de um governo central? É uma invasão de competência, que retira a autonomia dos governadores. Do jeito que a coisa caminha, logo mais a União nomeará interventores para gerir os estados.

CC: Argumenta-se que os estados são indisciplinados da gestão de seus recursos, gastam mais do que arrecadam. Por isso, seria necessário exigir certas contrapartidas.
RK: Entendo que não. A Secretaria de Tesouro Nacional faz um monitoramento das dívidas ano a ano. Os estados já estão no cabresto da União. O que ocorreu, nos últimos anos, foi uma abrupta redução da receita. A Lei Kandir, para citar um exemplo, exonerou totalmente os tributos de exportação. O Brasil precisava de recursos em moeda estrangeira, incentivou as exportações, mas os estados abriram mão de uma arrecadação de ICMS que chega a 60 bilhões de reais, quando o ressarcimento gira em torno de 3 bilhões.

CC: O que o senhor propõe ao Legislativo?
RK: Dividir o projeto. Primeiro, é preciso resolver a questão da dívida dos estados, e o Supremo Tribunal Federal inclusive acolheu o acordo no sentido de oferecer seis meses de carência. Aprova essa parte, mais simples, pois dá um alívio financeiro aos estados, e joga o restante para a análise das comissões. É preciso estudar se realmente isto é o melhor para o Brasil, fazer o debate legislativo que não está sendo feito. Não dá para tocar um projeto com impacto tão grande dessa forma, em regime de urgência.

domingo, 14 de agosto de 2016

Rio 2016: Olimpíada atrapalha ou ajuda o Brasil em recessão?


Olá alunos, 

A notícia de hoje busca suscitar uma reflexão acerca dos reais efeitos que a Olimpíada pode produzir no país que torna-se sede desse megaevento. Afinal, qual é o legado que os Jogos Olímpicos 2016 podem realmente deixar para o futuro do nosso país, sede do evento que ocorre em sua trigésima primeira edição? 

Esperamos que gostem e participem.
Palloma Borges, monitora da disciplina "Economia Política e Direito" da Universidade Federal Fluminense. 

Na prática, ao menos o efeito de curto prazo do evento parece ter sido o oposto (embora ainda haja quem defenda que o Brasil pode colher no longo prazo os frutos da exposição midiática conseguida com o Mundial).
Os feriados e paralisações provocadas pelos Jogos tiveram um impacto negativo na produção industrial e na economia como um todo, sendo responsabilizados pelo próprio governo pela queda de 0,6% do PIB no segundo semestre de 2014.
O que esperar, então, da Olimpíada - que, ao que tudo indica, ocorrerá em um momento ainda mais delicado para a economia brasileira?
Os Jogos vão dificultar a retomada do crescimento ou podem contribuir para criar um clima de otimismo - o que alguns economistas chamam de feel good factor - que favoreça a volta dos investimentos?

Estudos de impacto
Quando o Rio de Janeiro ainda competia com Madri, Tóquio e Chicago para ser a sede dos Jogos Olímpicos, em setembro de 2009, um estudo encomendado pelo Ministério dos Esportes à Fundação Instituto de Administração (FIA) estimava que a competição poderia movimentar US$ 51 bilhões em recursos e gerar 120 mil empregos.
O estudo defendia que os investimentos feitos para o evento teriam um efeito multiplicador amplo e diversificado sobre a economia, que duraria anos. O impacto também seria positivo fora do Rio de Janeiro - cerca de metade desses postos de trabalho beneficiariam moradores de outros Estados.
Em janeiro de 2014, um relatório preliminar de outro estudo, encomendado pelo Comitê Organizador dos Jogos Olímpicos à Universidade Federal do Rio de Janeiro, também defendia que o evento pode proporcionar "benefícios para as economias local, regional e nacional, ao estimular investimentos incrementais e estruturais."
E em dezembro, o prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes, defendeu numa audiência pública que a Olimpíada será marcada pela economia de recursos públicos, obras finalizadas no prazo e um legado econômico e social significativo.
"Tenho muita convicção de que a história da Olimpíada é bastante diferente do que foi a história confusa da Copa do Mundo. O modelo construído e a maneira como está se fazendo, inclusive do ponto de vista orçamentário, é algo bastante diferente", disse ele.
"(A Olimpíada) é uma oportunidade de mostrar um Brasil diferente do país que atrasa licitações e superfatura preços. (...) É uma enorme oportunidade de transformação", completou, mencionando, em seguida, a expansão da rede hoteleira do Rio de Janeiro.
Economistas e especialistas ouvidos pela BBC Brasil, porém, têm uma visão mais cética sobre o possível impacto dos Jogos na economia.
Juan Jensen, da Consultoria Tendências, por exemplo, nota que, tanto em alcance geográfico quanto temporal, a Olimpíada é um evento menor que a Copa. Por isso tende a ter um impacto ainda menos relevante para a economia brasileira como um todo

Ceticismo
Para começar, os torneios duram apenas duas semanas - não quatro, como no Mundial.
À exceção dos jogos de futebol, todas as competições ocorrem no Rio de Janeiro, enquanto na Copa eram 12 cidades-sede.
Além disso, apesar de a primeira vista parecer muito, os R$ 38 bilhões de investimentos ligados à Olimpíada são pouco significativos em um país com um PIB de R$ 4 trilhões.
"No longo prazo de fato existe a possibilidade de que a Olimpíada ajude a promover o Rio como destino turístico mundo afora. Se tudo ocorrer como previsto, sem incidentes de violência, podemos ter um ganho em termos de imagem", diz Jensen.
"Mas a essa altura não é uma Olimpíada bem organizada que vai mudar o humor do empresário ou convencer estrangeiros a investirem no Brasil. O que convence o investidor é ver que o país está crescendo e que tem um ambiente institucional favorável, respeito às regras e etc."
Otto Nogami, professor do Insper, concorda - e acrescenta que, mesmo os efeitos positivos de longo prazo, não estão garantidos.
"Sempre existe o risco de que, se houver qualquer problema durante o evento, a imagem do Rio saia enfraquecida", diz ele.
"Além disso, mesmo olhando apenas para a economia do Estado que recebe os Jogos, é preciso considerar que também haverá feriados e paralisações, que podem neutralizar os efeitos positivos de gastos mais aquecidos em determinados setores."

Evidência empírica
Para Wolfgang Maennig, especialista em economia do esporte da Universidade de Hamburgo, que vem estudando há anos os impactos econômicos de grandes eventos esportivos, essas competições "costumam ser um jogo de soma zero".
Segundo ele, estudos empíricos não captaram nenhum efeito significativo dos Jogos na geração de emprego, renda e arrecadação de impostos.
No que diz respeito ao fluxo de turistas, muitas cidades-sede de Copas ou Olimpíadas teriam até registrado quedas, uma vez que turistas tradicionais e corporativos costumam evitar esses destinos durante as competições.
"Uma Olimpíada é, basicamente, uma grande festa. As pessoas ficam mais felizes. É um momento de celebração do esporte para ser lembrado por muitos anos - mas não mais que isso", diz Maennig, que foi campeão olímpico de remo pela Alemanha Ocidental e esteve em todas as Olimpíadas realizadas desde 1984.
"Mas por que uma cidade quer ser sede dos Jogos Olímpicos? Para celebrar o esporte? Não, na grande maioria dos casos é para conseguir maior poder de barganha na competição por recursos federais para obras de infraestrutura."
Segundo Maennig, o problema é que, para legitimar essas candidaturas, muitos governos acabam apresentando estudos de impacto com estimativas infladas de geração de emprego e renda.
"Em quase todo país que compete para sediar uma Copa ou Olimpíada é a mesma coisa. Por isso, a primeira coisa que precisamos fazer para ajustar essas expectativas é acabar com esses estudos de impacto prometendo milhares de emprego", opina.
Pedro Trengrouse, especialista em Gestão, Marketing e Direito no Esporte da FGV, que foi consultor da ONU para a Copa, ressalta que a Olimpíada deve deixar um legado de infraestrutura positivo para o Rio de Janeiro em particular, na medida em que já contribuiu para concentrar investimentos do governo federal na cidade.
"Mas não adianta colocar as Copas ou Olimpíadas de verão ou inverno como solução de problemas econômicos que não tem nada a ver com esses eventos esportivos", opina ele.
"No mundo inteiro já há um debate amplo sobre os custos e benefícios de se receber essas competições justamente porque se percebeu que, ao menos do ponto de vista econômico, nem sempre a conta fecha. Não é a toa que em muitos lugares a questão já está sendo levada a plebiscito."
O Ministério dos Esportes não comenta sobre o impacto econômico da Olimpíada, mas ressalta que o evento deixará um legado importante no campo social e esportivo que beneficiará todos os Estados da federação, ao contribuir para colocar o Brasil no caminho de se tornar "uma potência esportiva".
"Desde que o Brasil conquistou o direito de sediar os Jogos Olímpicos e Paraolímpicos de 2016, o governo federal tem atuado para que o legado do maior evento esportivo do planeta contemple todos os Estados e o Distrito Federal", diz uma nota do Ministério.
A nota menciona a construção de 12 centros de treinamento de diversas modalidades, 261 Centros de Iniciação do Esporte, 46 pistas oficiais de atletismo e dez instalações olímpicas no Rio de Janeiro, além da compra de equipamentos de ponta em vários Estados.
"Os investimentos, superiores a R$ 4 bilhões, têm proporcionado a construção e a consolidação de uma Rede Nacional de Treinamento, com unidades que beneficiarão brasileiros em todas as regiões, contribuindo para a formação de novas gerações de atletas."

sexta-feira, 5 de agosto de 2016

Júri do Tribunal Internacional pela Democracia confirma golpe no Brasil


Olá alunos, 

A notícia de hoje mostra que o júri do Tribunal Internacional pela Democracia fez uma análise do processo de impeachment instaurado contra a presidente Dilma Rousseff, ocasião na qual os nove jurados de diferentes países concluíram que o país sofre violação ao processo democrático e à ordem constitucional.

Esperamos que gostem e participem.
Palloma Borges, monitora da disciplina "Economia Política e Direito" da Universidade Federal Fluminense.

Depois de dois dias em atividade, o júri do Tribunal Internacional pela Democracia sentenciou que o Brasil está, de fato, vivendo um golpe de estado. Os nove jurados, que vieram de outros países para analisar o processo de impeachment instaurado contra a presidente Dilma Rousseff, declararam que o país sofre uma grave violação ao processo democrático e à ordem constitucional. 
Além disso, os jurados deixaram claro que o impeachment fere a Convenção Americana sobre Direitos Humanos e o Pacto Internacional de Direitos Civis e Políticos. A sentença será entregue à presidente Dilma Rousseff nesta quinta-feira (21), no Palácio da Alvorada, em Brasília. Também será encaminhada ao Senado Federal e ao Supremo Tribunal Federal (STF) no final de julho, quando o recesso se encerra.
Com inspiração no Tribunal Russel, que nos anos 1960 julgou crimes dos Estados Unidos na Guerra do Vietnã, o julgamento brasileiro teve por objetivo debater e julgar, simbolicamente, o processo de impeachment que está em fase de decisão no Senado Federal. O evento teve duração de dois dias. Ocorreu na terça-feira (19) e quarta-feira (20), no Teatro Oi Casa Grande, no Leblon, com entrada gratuita.
Desenvolvido em três etapas, o Tribunal ouviu, primeiramente, as testemunhas e alegações orais da acusação e defesa do impeachment. O jurista Geraldo Prado foi o responsável pela acusação, já a advogada Margarida Lacombe argumentou na defesa do impeachment.  No segundo dia, cada um dos jurados, vindos do México, França, Argentina, Espanha, Colômbia, Costa Rica e Estados Unidos, expressou seus votos. Em seguida, a sentença final foi emitida.
“Mais de 54 milhões votaram por Dilma, portanto, Temer é um insulto ao Brasil e seu governo não é legítimo. Aliás, seu governo está composto por homens brancos e ricos que não têm nada a ver com o povo brasileiro”, afirmou a senadora francesa Laurence Cohen, durante sua fala.
Já Maria José Farinas Dulce, professora de Direito da Universidade de Madrid, na Espanha, declarou que o golpe brasileiro faz parte de uma contra revolução neoliberal que também está sendo vivida na Europa. “Nós, trabalhadores, estamos perdendo direitos em todos os lugares do mundo. Estão tirando nossos mecanismos de integração com a sociedade. O que eles querem é atacar o social e impedir que o discurso de luta contra a desigualdade avance ainda mais”, explicou.
Durante os dois dias de atividade, o Oi Casa Grande, que tem capacidade para 900 pessoas, permaneceu cheio. Para os que não puderam comparecer, o julgamento também foi transmitido pelas redes sociais. As visualizaçõesonline bateram 10 mil pessoas. Além disso, com o objetivo de fazer uma documentação do evento, os cineastas Silvio Tendler e Pola Ribeiro fizeram a cobertura em vídeo para ser distribuída na internet não só no Brasil, mas também internacionalmente.
“Como norte-americana, condeno a postura dos Estados Unidos ao não reconhecer o golpe brasileiro. Meu país não quer política social que não o privilegie. A luta do povo brasileiro não pode enfraquecer. Como diz um provérbio dos Estados Unidos, ‘tentaram nos enterrar, mas não sabiam que éramos sementes’”, finalizou a advogada, especialista em direitos humanos, Azadeh N. Shahshahani.

segunda-feira, 1 de agosto de 2016

A China cresce no setor elétrico brasileiro



Olá alunos, 

A notícia de hoje mostra que a China, embora tenha adquirido parte da CPFL, uma das maiores empresas do setor elétrico brasileiro, tem encontrado algumas dificuldades para continuar crescendo nesse setor. 

Esperamos que gostem e participem.
Palloma Borges, monitora da disciplina "Economia Política e Direito" da Universidade Federal Fluminense. 

Noticiada só como um grande negócio, a venda, pela Camargo Corrêa, de 23% do controle da CPFL, uma das maiores empresas de energia do País, à chinesa State Grid, principal grupo mundial do setor, envolve interesses de longo prazo e desnuda a ausência de políticas estratégicas do governo para a economia.
A transação de quase 6 bilhões de reais foi anunciada na sexta-feira 1º pela construtora, impedida há dois anos de firmar contratos com o poder público por implicação na Operação Lava Jato. Com dificuldade de acesso a crédito bancário, a empreiteira enfrenta problemas de gestão de caixa a curto prazo.
O bloco controlador inclui os fundos de pensão Previ, dos funcionários do Banco do Brasil, com 29,4% das ações, e dos empregados da Cesp, Petrobras, empresas de telefonia e Sabesp, com 15,1%. A venda dessas participações é dada como certa, pois as instituições de seguridade precisam fazer caixa para cobrir déficits acumulados nos últimos anos.
Os ativos da State Grid no País incluem 5.785 quilômetros de linhas de transmissão, 12.803 megawatts de capacidade e 14 subestações. A sua próxima aquisição deverá ser a Eletropaulo, fornecedora da capital paulista, preveem analistas. Outro objetivo são firmas do setor de energia eólica, de notável expansão recente com indústrias, tecnologia e rede de fornecedores nacionais financiados pelo BNDES.
A notícia do negócio provocou uma alta de 8,41% no preço dos papéis da CPFL Energia, para 22,2 reais, na Bolsa de Valores de São Paulo. Computados o desempenho técnico e econômico e os baixos índices de falhas, a brasileira é considerada uma das melhores companhias de energia do País.
No ranking da agência reguladora Aneel, três das dez distribuidoras com menos interrupções são do grupo CPFL. Não existiriam débitos escondidos, dívidas não reconhecidas nem situações geradoras de passivos não previstos, atestam especialistas.
A sua área de concessão é a mais industrializada e rica e inclui o Rio Grande do Sul, parte de Santa Catarina e São Paulo, exceto a capital. No ano passado, o lucro atingiu 875,2 milhões de reais e a geração de caixa, 3,75 bilhões. A posição atingida é atribuída, em grande parte, à gestão do presidente Wilson Ferreira Jr., que deixou a CPFL no começo do mês e assumiu a presidência da Eletrobras.
Além da possibilidade de assumir o controle da maior empresa privada integrada, com distribuição, geração e transmissão de energia elétrica, os chineses podem alcançar também o primeiro lugar em capacidade instalada hidrelétrica através da Three Gorges, prevê o site Ilumina.
A companhia, que no mês passado adquiriu duas hidrelétricas da Cesp, desbancaria Furnas, com ativos incorporados à Eletrobras por força da Lei nº 12.783, de 2013, e hoje com só 2,9 mil megawatts próprios. Segundo a Agência Internacional de Energia, de 2005 a 2012 a China investiu 18,3 bilhões de dólares no setor de energia no Brasil.
Para o economista Antonio Corrêa de Lacerda, da PUC de São Paulo, a possibilidade de o capital estrangeiro assumir uma posição estratégica da área de energia deveria ser analisada também da perspectiva dos interesses do País.
“O Estado e as empresas nacionais não precisam estar sempre à frente de todos os empreendimentos, mas a falta de um marco regulatório com limites e responsabilidades para as firmas é preocupante, pois não há controle sobre as suas políticas de compras e planos de investimentos.”
A desnacionalização afeta o balanço de pagamentos, com a remessa de lucros e dividendos em dólares aos sócios estrangeiros e, “se não houver uma fonte de receita para bancar essa saída, ocorrerá um desequilíbrio intertemporal nas suas contas de capitais, serviços e rendas”.
Os números do balanço de pagamentos de maio mostram a magnitude do problema. O saldo positivo das transações correntes foi de 1,2 bilhão de dólares, e as despesas líquidas de remessas de lucros e dividendos atingiram 1,7 bilhão.

Outro aspecto é a visão de desenvolvimento e política industrial. Quando há empresas nacionais relevantes, controladas pelo Estado e privadas, é mais fácil obter o compromisso do conjunto com objetivos de localização de unidades, conteúdo local, desenvolvimento de inovações e manutenção de empregos.
A desnacionalização dificulta o processo. “Claro que sempre é possível negociar, mas há o problema da falta de clareza do marco, dos objetivos do País. Outro nó é que lidamos muito mal com o capital estrangeiro.
Os maiores grupos do mundo operam no Brasil, mas não há uma política de relacionamento no sentido de aproveitá-los mais para o nosso desenvolvimento.” O economista defende o estabelecimento de critérios que representem alguma forma de compromisso.
As exigências de um marco regulatório deveriam incluir definições quanto às tarifas e aos preços, pois sempre há o risco de surgir um monopólio privado com grande poder de formação de preços. Outros pontos são as políticas de investimentos, localização e desenvolvimento local das empresas.
“Existem limites nos acordos internacionais e na própria Organização Mundial do Comércio quanto a exigir desempenho de investidor estrangeiro, mas, apesar disso, é possível estabelecer algumas regras e compromissos mútuos capazes de minimizar os riscos do processo de desnacionalização.”
Para o professor de Economia da PUC-SP Gabriel Galípolo, “os chineses estão com muito apetite de aquisições no setor de energia, em parte porque as tarifas têm uma indexação ao dólar através da correção pelo IGP e proporcionam um hedge ou proteção contra as oscilações da moeda estrangeira”.
A política de valorização do dólar, sujeito também às oscilações da economia mundial, visa combater a inflação, mas barateia as empresas locais e estimula a desnacionalização. “Desde o início do ano, o País vive outro ciclo de apreciação da moeda motivado principalmente por fatores externos. Mais uma vez fomos campeões de valorização cambial entre as moedas mais voláteis”, diz Pedro Rossi, professor de Economia da Unicamp. Em uma semana, o real apreciou 5% em relação ao dólar.
Uma alternativa para a situação do setor elétrico e outros agentes e concessões públicas em dificuldades seria o alongamento de prazos das dívidas e uma injeção de recursos pelo Tesouro Nacional, com impacto na dívida pública. A opção é improvável, dada a situação da economia e resistência a uma revisão do dogma do equilíbrio fiscal, entre outros motivos.
Tempos atrás era inimaginável um fundo de pensão ou mesmo um grande grupo nacional decidir a venda de uma companhia de porte como a CPFL só por uma questão relativa ao seu próprio balanço.
Havia a praxe da consulta ao governo federal, que tinha uma capacidade de articulação do capital nacional público e privado. O quadro mudou, empresas e fundos sentem-se abandonados por Brasília e tomam as decisões com base apenas nos seus interesses.
Um exemplo de atitude é a ação da Alemanha, no mês passado, diante do assédio chinês a indústrias globais de ponta, incluída a proposta de aquisição da fabricante de robôs Kuka, de Augsburg.
A primeira-ministra Angela Merkel, seis ministros de Estado e os presidentes da Volkswagen, BMW, Siemens, ThyssenKrupp, Lufthansa e Airbus voaram a Pequim para discutir os interesses econômicos em jogo com o primeiro-ministro Li Keqiang e o presidente Xi Jinping. No Brasil, não se tem notícia sequer de um esboço de reação do governo interino diante da escalada estrangeira no setor de energia elétrica.

sábado, 30 de julho de 2016

Para virar do avesso políticas de Segurança Pública


Olá alunos, 

A postagem de hoje traz uma entrevista com o antropólogo, cientista político e especialista em segurança pública Luiz Eduardo Soares, o qual alerta que as prisões em massa e a violência policial fracassaram no combate ao crime. Nesse sentido, esse seria o momento de gerar uma "polícia cidadã" e de acabar com a guerra às drogas.

Esperamos que gostem e participem.
Palloma Borges, monitora da disciplina "Economia Política e Direito" da Universidade Federal Fluminense.

O antropólogo, cientista político e especialista em segurança pública Luiz Eduardo Soares é um dos mais notáveis defensores da necessidade de se desmilitarizar a Polícia no Brasil. O coautor dos livros Elite da Tropa 1 e 2 (Que deram origem aos filmes Tropa de Elite) defende uma reforma que em sua avaliação não é simples, mas necessária, para que a polícia brasileira seja menos letal e, ao mesmo tempo, cumpra melhor seu papel. Esta questão está intimamente relacionada à superlotação das prisões e à sua falência em recuperar os criminosos, segundo ele.
Carioca, Soares veio a Porto Alegre para participar do evento “Porto Alegre sem medo – Construindo uma cidade mais segura“, promovido pela pré-candidata à prefeitura pelo PSOL, Luciana Genro, que aconteceu em 21/6 na Assembleia Legislativa. Em entrevista exclusiva ao Sul21, ele fala sobre a questão da desmilitarização da polícia, a necessidade de haver uma carreira única para os policiais e o papel que os municípios podem ter para melhorar a segurança pública. “A ideologia que rege as instituições militares policiais é a da guerra. Cumpre-se um mandado da sociedade para eliminar, liquidar fisicamente os inimigos, o que é absolutamente incompatível à atividade de uma polícia”, afirma. Confira a entrevista completa:
O senhor defende a desmilitarização da polícia como uma possível solução para a violência policial. De que forma isso beneficiaria a sociedade e mudaria a forma como as polícias agem?  
Não necessariamente mudaria, mas é um pré-requisito para que mude. É uma condição necessária, mas não suficiente. Se pensarmos no Brasil, nós temos 56 mil homicídios dolosos por ano, dos quais só 8% são investigados. E a partir daí muita gente deduz que seja o país da impunidade, quando temos a quarta população carcerária do mundo, a que mais cresce desde 2002. Então isso pode parecer um enigma, mas é simples de desvendar. Há uma polícia, que é a mais numerosa, que está nas ruas todos os dias, durante as 24 horas. E essa polícia é proibida de investigar, é a Polícia Militar. Então a polícia que não pode investigar é instada, é provocada a produzir. E qual é a produtividade da PM, como ela define essa efetividade enquanto instituição? Prendendo. E apreendendo armas e drogas. Se ela não pode investigar, está proibida constitucionalmente de fazê-lo, ela é pressionada pelos governos, mídia e população a fazer prisões em flagrante. E quais os crimes passíveis de prisão em flagrante? Os que são acessíveis aos cinco sentidos. Isso significa um filtro seletivo que faz com que a ideia de aplicação da lei seja absolutamente distorcida.
Qual lei é instrumentalmente mais útil para o trabalho da PM? É a lei de drogas, porque é possível identificar os aviõezinhos, aqueles rapazes em geral que se dedicam à comercialização das substâncias ilícitas. E portanto, você encontra nos territórios mais pobres, mais vulneráveis, nas periferias, vilas e favelas, a presença policial que vai à caça de seus presos prediletos: os presos possíveis. Que não por acaso são negros, pobres e jovens, que estão entupidos as penitenciárias, sendo induzidos a buscar um vínculo com uma organização criminosa. Em geral, quando são presos eles não apresentam vínculos sólidos com organizações criminosas, não portam armas e não cometeram violências. Então você está prendendo varejistas do comércio de substâncias ilícitas, entupindo as prisões e arruinando a vida desses jovens por um preço muito alto. Isso tudo por conta de um casamento perverso entre o modelo policial e a lei de drogas.
A lei de drogas também precisaria ser mudada, então?
É, eu estou focalizando num aspecto que é importante, mas não é o único. Porque então pode-se dizer que se deve conceder à Polícia Militar a possibilidade de investigar também. Mas como seria possível para agentes que são organizados hierarquicamente, que seguem o comando superior sem pestanejar – porque a disciplina militar exige isso – aplicar a lei civil, se responsabilizar por investigações? Parece incompatível a natureza militar com esse tipo de prática.
Qual é a melhor forma de organização? É uma pergunta que não pode ser respondida, depende da instituição. A organização adapta uma certa entidade ao cumprimento de suas finalidades. Então começamos identificando o objetivo. O Exército, que é o modelo copiado pela PM, se organiza para cumprir sua tarefa, que é garantir a soberania do território, recorrendo inclusive a recursos bélicos quando necessário. Por isso, se centraliza de forma muito rigorosa, com uma hierarquia vertical muito rígida, porque o seu método de ação para cumprir sua finalidade se define pelo pronto-emprego, que é a capacidade de deslocar grandes contingentes humanos de forma eficiente e rápida. Portanto, se justifica, ainda que tenha havido muitas mudanças, com sofisticação, meios eletrônicos, os exércitos estão mais organizados. Mas de qualquer forma, compreende-se plenamente o formato. Uma polícia só deveria imitar essa estrutura do exército se a finalidade fosse a mesma. Mas não é essa a finalidade. A polícia tem como finalidade a garantia de direitos, prover meios para que se pratique a garantia de direitos. E se é assim, como vai se organizar como se fosse um exército? Claro que há confrontos que são bélicos, mas esses momentos correspondem a um número muito reduzido diante da complexidade e da magnitude das tarefas que se impõem às polícias militares do Brasil. Você não vai organizar uma instituição inteira para atender 1% da necessidade. Poderia ter unidades formadas especificamente para essa finalidade.
E por isso a polícia é tão letal?
Sim, isso nos conduz à questão do comportamento. A violência policial letal é uma tragédia nacional, a polícia do Brasil é uma das que mais matam no mundo, pelo menos entre os países que fornecem essas informações. E os dados são subestimados. No Rio de Janeiro, que talvez seja um dos estados com melhor registro desses fatos, tivemos entre 2003 e 2015, 11.343 mortes provocadas por ações policiais. Policiais muitas vezes morrem também, a situação de enfrentamento bélico é negativa também para eles. A ideologia que rege as instituições militares policiais é a da guerra. E se cumpre um mandado da sociedade para eliminar, liquidar fisicamente os inimigos, o que é absolutamente incompatível à atividade de uma polícia, porque não há inimigos, há cidadãos que são suspeitos ou que estão colocando em risco a vida de terceiros e devem ser contidos a partir da escala das ameaças. Isso nada tem a ver com a guerra propriamente dita, ainda que ações sejam similares. Quando toda a polícia é treinada para eliminar um inimigo, o suspeito passa a ser alvo de um ataque de destruição. Isso é escandaloso. Claro que seria possível tentar mudar essa cultura corporativa tão violenta e tão brutal mesmo sem a mudança estrutural, mas seria muito difícil. Não valeria a pena todo o empenho cujos resultados seriam improváveis mantendo um sistema organizacional que de qualquer forma é incongruente e incompatível às necessidades constitucionais.
A atitude das Polícias Militares em relação às repressões de movimentos sociais também segue essa lógica da guerra?
Sim, tem a ver com a estrutura organizacional, com a militarização. Até porque os policiais na ponta são máquinas de reprodução das ordens superiores, não são agentes treinados para refletir e tomar decisões com alguma dose de autonomia, o que seria o ideal. Eles são instruídos para obliterar o pensamento e agir como máquinas que obedecem e cumprem ordens. Por isso vemos cenas terríveis, tristes, em que jovens, pobres, frequentemente negros, entram em confronto com outros jovens, pobres, frequentemente negros, oriundos dos mesmos territórios vulneráveis, alguns uniformizados. Quando não haveria nenhuma razão para que se matassem mutuamente, sobretudo no campo dos movimentos sociais.
Ao mesmo tempo, o senhor mencionou os homicídios que são poucas vezes desvendados. A Polícia Civil também precisaria passar por uma reforma?

Sim, e essa própria distinção entre civil e militar é parte do problema. Toda polícia, como em qualquer parte do mundo, deveria cumprir todas as atribuições. A Polícia Civil enfrenta problemas enormes e é muito deficiente no cumprimento do seu mandato constitucional. Oito por cento de crimes resolvidos significa 92% de impunidade. Qualquer instituição que se proponha a cumprir um objetivo e não consiga em 92% dos casos diria que é preciso parar e começar de novo. Isso não é culpa de uma pessoa, é um problema estrutural. Assim como a brutalidade da Polícia Militar, não é necessariamente passível de atribuição a um ou outro indivíduo, já tem um padrão que vai se reproduzindo independente da vontade do próprio corpo profissional. Portanto, temos, na área da investigação, problemas na relação com a perícia, problemas organizativos, de investimentos, há o problema do inquérito policial, que é burocratizado, não flui. Então temos um desastre, uma falência desse modelo. Prendemos muitíssimo, temos mais de 700 mil presos no Brasil, dos quais só 12% cumprem penas por homicídio, 2/3 estão lá por crimes contra o patrimônio. Não é preciso dizer que, num país racista como o nosso, a maioria é negra, além de jovem e do sexo masculino. Prendemos muito e mal, arruinamos vidas de jovens e abdicamos de controlar a violência letal. E pior, o Estado acaba por reproduzi-la com seus braços institucionais. Então o Estado é parte do problema, assim como as polícias, independente das vontades individuais.
E ainda por cima, há muitos presos que aguardam julgamento dentre os que lotam as prisões, certo?
Exato. Eram 40% até dois anos atrás e houve um esforço muito grande do CNJ, houve uma queda expressiva, embora ainda seja um grande número. Mas a diferença é de classe, o que no caso brasileiro acaba sendo também de cor. Porque quem tem advogado não fica preso, salvo exceções. E as defensorias públicas não existem em número suficiente para atender essa massa de suspeitos, réus, inclusive porque há mais de 300 mil mandados de prisão esperando cumprimento no Brasil.
Existem projetos de lei já pensando em mudar essa questão das polícias militarizadas?
Há dezenas de PECs (propostas de emenda à constitucional) circulando ou tramitando no Congresso Nacional sobre a polícia. Mas, a respeito da desmilitarização, eu acho que são poucas. A mais elaborada, do meu ponto de vista, seria a PEC 51/2013, de autoria do senador Lindbergh Farias (PT-RJ), de cuja elaboração eu até participei. Ela resulta de conversas com profissionais, pessoas das corporações, diálogos e experiências diversas. Não há proposta perfeita, mas essa é talvez a que pode ir mais longe, de forma sistêmica, com o mínimo de resistência. É um meio-termo entre o avanço e a capacidade de agregação. Os pontos principais são a desmilitarização e a realização do ciclo completo com atribuição de todas as instituições policiais. Com a desmilitarização, a PM deixaria de existir e a nova polícia iria investigar, mas de outro modo. A carreira única é outra grande bandeira de agentes e oficiais da Polícia Civil, Federal e de boa parte dos trabalhadores da Polícia Militar [incluída na PEC]. Há alguma resistência na cúpula das instituições, mas, particularmente na Polícia Civil, os oficiais são mais abertos em relação a isso.
Porque hoje, na prática, temos quatro polícias. A Civil se divide em delegados e agentes. Basicamente os agentes, embora tenham várias funções, não podem ascender até se tornarem delegados, que é uma função de comando. E, na Polícia Militar, há os oficiais e praças, são duas entradas diferentes, o que acaba formando castas que viram problemas internos. Esse tipo de arranjo não estimula a coesão interna e barra o acesso às posições superiores de muitos profissionais que poderiam ascender com base no mérito, no tempo de experiência. Quem entra como praça, precisaria fazer um novo concurso para conseguir chegar às posições mais altas. E não se leva em conta na prova a experiência prévia.
Importante também falar que isso não é suficiente. Essas mudanças todas são, a meu juízo e segundo avaliação da maioria dos envolvidos nessa área, indispensáveis, mas não são suficientes, porque podemos ter estruturas organizacionais muito melhores, mais suscetíveis a controles externos, mais permeáveis a políticas de transparência, mais indutoras de políticas de segurança e mais capazes de respeitarem direitos humanos. Mas as estruturas por si mesmas, ainda que facilitem, não garantem que políticas de segurança aplicadas sejam adequadas. Isso depende de autorização política, da formação, do governo do Estado, e depende da autorização popular. A brutalidade policial não existiria sem autorização social.
Sobre essa autorização social, percebe-se que o discurso do “bandido bom é bandido morto” se acentua conforme a violência aumenta. A mudança teria que vir a nível cultural também?
Sem dúvida. Só que devemos pensar nisso tudo como uma realidade pluridimensional, com muitas camadas diferentes. Se nós agirmos em todas as dimensões, cujas temporalidades são muito diferentes, vamos contribuir para que esse processo estabeleça uma química interna e gere um agregado mais favorável. A mudança da sensibilidade da cultura acontece sem que a gente possa controlar, mas se a gente investir em uma educação com sensibilidade para os direitos humanos, vamos estimular esse resultado, embora não possamos garantir. Se a mídia e as linguagens de comunicação incorporassem um pouco mais esses valores, isso ajudaria. Se as escolas constituíssem força de valorização dessas atitudes, avançaríamos numa direção mais positiva. São processos que precisam existir paralelamente. Isoladamente, essas medidas não são suficientes, mas são imprescindíveis e devemos investir em cada uma delas de acordo com as possibilidades e com as resistências que enfrentamos. Esses são processos muito complexos, não podemos resolver em um só momento todos os problemas.
Nesse sentido, o que se pode fazer no âmbito municipal para tornar as cidades mais seguras?
Pergunta fácil essa, né? (Rindo). Na nossa Constituição, no artigo 144, que organiza a segurança pública, os municípios não têm nenhum lugar. Há uma menção rápida de que podem ter uma guarda civil, que podem cuidar dos patrimônios municipais, como parques. E isso inclusive é uma contradição com todo o desenho da Constituição brasileira, que em 1988 estimulou a participação do município como ente federado importante, no cumprimento das grandes políticas sociais, como educação, saúde e assistência. Há uma tripartição de funções e de destinação de recursos, há uma composição articulada no SUS, mesmo na educação, nunca vi esse modelo sendo criticado, foi até modelo de conquista. Isso não se aplica à segurança pública, o município não tem função nesse sentido. A União tem a Polícia Federal, a Rodoviária Federal e ponto final. Isso é muito pouco diante das responsabilidades que poderiam ser atribuídas. Todas as responsabilidades caem nos ombros dos estados. E os municípios não têm responsabilidades do ponto de vista de segurança pública. Não há politica nacional, orientação sobre o que devem ser as guardas municipais. A segurança municipal é uma grande possibilidade da reinvenção da segurança pública no Brasil, a despeito de todos os limites.
A partir de investimentos em assistência social, por exemplo?
Falar em assistência é muito genérico. Para que haja resultados, é preciso que haja diagnóstico. A gente tem que observar cada situação em cada bairro, território, entender que processos estão em curso. Isso exige pesquisa, escuta e diálogo com a comunidade. Por exemplo, por que em determinado lugar as pessoas se armam para vender substancias ilícitas, por que acontece esse crescimento? Temos que descobrir que tipos de trajetória estão tendo esses jovens, quais as características desse processo. Se entender em cada região o porquê de acontecer um crescimento desse tipo de formação armada, pode-se atuar sobre os dispositivos geradores desses processos. O que se obtém no tráfico é reconhecimento, valorização, acesso a recursos simbólicos e financeiros. Isso são condições para que a autoestima se fortaleça, mesmo que essas generalizações sejam complicadas. Jovens que são invisíveis, que não são reconhecidos, vivem um esmagamento da autoestima, enfrentam problemas em casa, familiares, comunitários e vagando pelas ruas se sentem desprezados ou desprezíveis. Quando lhes é oferecida uma arma para que ingressem em um grupo poderoso, percebem que isso é uma espécie de passaporte para a visibilidade e o pertencimento. E a experiência do pertencimento é muito gratificante. Isso tudo explica em parte porque se está disposto inclusive a arriscar a própria vida ingressando ali muitas vezes por pagamentos diminutos. Em geral, o recurso material não é a principal razão.
Se esse diagnóstico foi razoavelmente preciso, podemos extrair que, ao invés de montar uma máquina de guerra e invadir esse território para liquidar essas pessoas, com as implicações desastrosas que estamos cansados de ver, você pode montar um processo paralelo que seja capaz de oferecer a esses jovens o mesmo que o tráfico oferece, com o sinal invertido: reconhecimento, valorização, pertencimento e possibilidade de redefinição dos seus horizontes de vida. Se você monta um dispositivo capaz de competir com essas outras fontes de recrutamento, você pode recrutar aqueles que estão vulneráveis a irem para o tráfico.

terça-feira, 26 de julho de 2016

Falta ao Rio reflexão sobre os problemas locais, diz economista


Olá alunos, 

A postagem de hoje traz uma entrevista com o economista Mauro Osorio, o qual afirma que o clientelismo, os lobbies e a falta de debate local prejudicam a capital do Rio de Janeiro. Vale a pena conferir essa entrevista e refletir um pouco sobre a conjuntura dos problemas que a capital fluminense vem enfrentando.

Esperamos que gostem e participem, 
Palloma Borges, monitora da disciplina "Economia Política e Direito" da Universidade Federal Fluminense.

O economista Mauro Osorio, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro e doutor em Planejamento Urbano e Regional pelo Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano e Regional da mesma instituição, é considerado um dos maiores especialistas na metrópole fluminense.
A crise política, econômica e social da cidade tem origem, segundo o economista, na estruturação política e institucional voltada aos problemas do País, causa da debilidade do debate local, acentuada pelo golpe de 1964.
Além de um esforço intensivo para pensar a realidade regional, Osorio propõe uma espécie de Plano Marshall para enfrentar a gravíssima situação da periferia da cidade.
CartaCapital: Quais as causas da crise do Rio de Janeiro?
Mauro Osorio: A falta de reflexão regional, a política econômica muito atrasada nas antigas unidades federativas e, depois do golpe de 1964, uma lógica clientelista a partir do governo Chagas Freitas. Tudo isso gera uma enorme dificuldade para o planejamento de uma estratégia de adensamento produtivo. 
CC: Na origem dos problemas, aponta a sua pesquisa, estaria a constituição tecnocrática e conservadora da cidade nos moldes de Washington, capital dos Estados Unidos. Qual é o peso dessa influência?  
MO: É fundamental. Lá e aqui, procurou-se restringir o espaço da política local, uma condição confirmada, no caso brasileiro, na Constituição de 1946 e na Lei Orgânica do Distrito Federal de 1948.
Definiu-se que o prefeito seria nomeado pelo presidente da República e, ao contrário das demais localidades brasileiras, as leis votadas pelos vereadores da capital e depois vetadas pelo prefeito não retornariam à Câmara Municipal, mas seriam analisadas pelo Senado Federal.
O Rio de Janeiro constituiu-se, portanto, desde a sua fundação, como um espaço de articulação e reflexão nacional, não local nem regional. O seu dinamismo econômico-social deriva, até 1920, da situação de principal porto e centro militar do País e, depois, da condição de capital da República.
Nos anos 1950 e 1960, é o centro cultural, político e econômico do País, polo financeiro e sede de empresas públicas e privadas de atuação nacional e internacional. Tudo isso levou a priorizar o debate nacional. 
CC: Qual o efeito dessa distorção?
MO: É a falta de uma tradição de reflexão sobre os problemas locais e regionais que sempre dificultou a constituição de uma agenda. As universidades de referência são federais, ao contrário daquelas de São Paulo e de Minas Gerais, estaduais.
Até hoje não há um programa de mestrado e doutorado com uma linha permanente de pesquisa em economia regional. Como escreveu Arnaldo Niskier, secretário de Ciência e Tecnologia no governo Negrão de Lima nos anos 1960, o carioca, em relação ao conhecimento local, não passa de um turista apressado. 
CC: Qual a consequência para a sociedade?
MO: A falta de foco nos problemas regionais facilitou o surgimento de lobbies locais, como o da incorporação civil, no setor imobiliário, muito forte desde a época do Rio Capital Federal. Não é o único.
Um espaço importante para o crescimento é o do terminal de contêineres em Itaguaí, na periferia metropolitana, com um porto construído por Eike Batista, mas há um lobbypoderoso contra a expansão da cidade nessa direção. 
CC: Havia um ceticismo quanto à mudança para Brasília. 
MO: A transferência estava definida na Constituição desde 1891, mas a descrença quanto à mudança da capital era tão grande que houve só um debate público sobre os rumos da metrópole após a transferência para Brasília, organizado pelo jornal Correio da Manhã, em 1958.
O jornal O Globo mostrou, no início dos anos 1960, os cariocas comemorando a mudança da capital por achar que Brasília não se consolidaria e eles poderiam, enfim, eleger o seu representante local na nova cidade-Estado, a Guanabara.
A lentidão da transferência mantinha a cidade com a cabeça na órbita nacional. O BNH foi criado depois do golpe, a Previdência só foi para Brasília na segunda metade dos anos 1980, o BNDES e a Petrobras ainda estão no Rio. 
CC: Quando se percebeu o tamanho do problema da transferência da capital?
MO: Isso demorou 20 anos. A crise começa nos anos 1960, mas, entre 1968 e 1970, o Brasil cresceu com o chamado “milagre econômico”. O dinamismo nacional mascarou o declínio local. Não se percebeu, por exemplo, que na década de 1970 o crescimento da indústria no Rio atingiu só 173%, ante 285% no País e 342% em Minas Gerais. O carioca só começa a se dar conta das consequências de não ter estratégias adequadas à transição nos anos 1980. 
CC: Quais os pesos específicos das obras da Copa e da situação do petróleo e da Petrobras na crise?
MO: Houve uma melhora a partir de 2008, mas a estrutura produtiva é oca, principalmente na periferia metropolitana e no interior. Minas Gerais ultrapassou o Rio na arrecadação de ICMS, em 2004, e os royalties do petróleo caíram 45% de uma só vez, descontada a inflação.
O estado ficou muito tempo sem fazer concurso e a máquina pública envelheceu. Nos anos 1980, havia 1,2 mil engenheiros de carreira no serviço público estadual, hoje são 400, quase todos prestes a se aposentar.
O gasto do Judiciário e do Legislativo, em termos per capita, foi 70% maior, em 2014, que em São Paulo e Minas Gerais. Ou seja, com uma desestruturação na distribuição do orçamento, quem tem força acaba empurrando. O quadro fiscal agrava a situação.